quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Brasil: Independência ou morte, seja um brando de fortalecimento dos caminhos democráticos.

Brasil: Independência ou morte, seja um brando de fortalecimento dos caminhos democráticos.
Luciano Capistrano
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana/UFRN
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: SEMURB/Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte

Que País é Esse?
(Renato Russo)

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

No Amazonas, no Araguaia
Na Baixada Fluminense
No Mato Grosso e nas Gerais
E no Nordeste tudo em paz

Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Terceiro Mundo se for piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

          Na década de 1980, ventos originários da capital federal, Brasília, trazia a sonoridade do rock brasileiro, entre os diversos grupos, “crias” das esplanadas, surgia o Legião Urbana. Do Aborto Elétrico vinha Renato Russo, com uma das letras, que logo, logo, se transformaram em hino de uma geração que aspirava por liberdade. O Brasil, iniciava de forma afirmativa, com as mobilizações de rua, sua caminhada na estrada de restauração da democracia, perdida durante os 21 anos de governos dos generais presidentes.
          Lembro da Campanha das Diretas Já.
         O ano 1984, a Emenda a Constituição, apresentada pelo Deputado Dante de Oliveira, ganha as ruas e praças deste país, o povo na rua, mobiliza-se a sociedade. Multidões, rompe-se o silêncio, a CNBB, a OAB, a ABI, e outras Instituições da sociedade se alinham no discurso em favor da Emenda Dante de Oliveira.
      Das Praças ecoa o grito: Diretas Já! Existia um desejo por democracia a unir os diversos espectros políticos ideológicos da sociedade brasileira, como nos diz o historiador Carlos Fico:


[…] No Rio de Janeiro, quando Sobral Pinto iniciou seu discurso citando o artigo primeiro da Constituição (“Todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido!”), o povo foi ao delírio. A presença de Sobral era emblemática: nonagenário, ele era um católico liberal, distante do radicalismo da esquerda. Havia defendido o líder comunista Luís Carlos Prestes após a rebelião de 1935 mesmo discordando dele. Representou, naquele momento da Campanha das Diretas, a união da sociedade brasileira em torno do mais básico princípio democrático: os cidadãos devem escolher seu mandatário, independentemente das ideologias políticas que os reunissem em defesa desse pressuposto elementar. (FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Editora Contexto, p.101, 2015)

      Em abril de 1984, na Praça Gentil Ferreira, vivi com meu pai, Benjamin Capistrano Filho, um dos momentos mais impactantes, milhares de pessoas, lotando a Avenida Amaro Barreto, a Avenida Presidente Bandeira, o Relógio, símbolo do Alecrim, testemunhou a euforia, o grito, recolhido, proibido, era posto para fora, vi meu pai, perseguido pelos governos militares, chorar de alegria, alegria em ver a liberdade se expressar naquela manifestação política, ali, naquele momento, me convenci mais, e, mais da preciosidade que é viver em um país democrático.
      Ao lembrar da Campanha das Diretas Já, me vem o discurso, dito por alguns mal intencionados e outros desavisados, que vociferam “Intervenção Militar já”, amigo velho, o processo de democratização do Brasil não ocorreu de forma fácil, apesar da chamada, “Abertura Lenta, Gradual e Segura”, defendida durante o governo do General Presidente Geisel, os órgãos de repressão política continuavam em ação, um xadrez político complicado de ser desarmado era o lado “duro” dos militares que defendiam a permanência do arcabouço jurídico/repressivo aos moldes do Ato Institucional 5. Não, esqueçamos do atentado do Rio Center, quando militares ligados aos setores radicais da direita militar, levavam explosivos para serem detonados no show do primeiro de maio, felizmente o artefato explodiu no “colo” de um dos terroristas “verde-oliva”.
      A crise política, de hoje, guardada as devidas diferenças, tem alguns fatores que lembram os anos anteriores ao abril de 1964, quando os militares e civis, filiados aos interesses norte-americano, como testemunhou o embaixador dos EUA, a época, Lincool Gordon, romperam o processo democrático e implantaram uma ditadura civil-militar, 1964-1985.
      Existe uma crise, sim, mas, como costumo dizer: existe apenas uma saída, e, a saída, amigo velho, é uma OVERDOSE de DEMOCRACIA.
       O perigo dos momentos de crises, éticas, políticas, econômicas, são os “salvadores da pátria”, como nos alertou o Deputado Ulisses Guimarães, quando da proclamação da Constituição de 1988: "República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam.”
      Ao aproximar do fim deste curto artigo, sem ser conclusivo, mas apenas um convite ao diálogo, deixo, para as muitas reflexões, um fragmento do “Funk da Lama” de Zeca Baleiro:

Tanto faz se é Demóstenes
ou Palocci
Se é Fabio Melo ou Marcelo Rossi
Você vai ter que responder pelo o que faz,
Você vai ter que responder pelo o que diz ...”


     Brasil: Independência ou morte, seja um brando de fortalecimento dos caminhos democráticos. E, assim, entre crises, continuemos a busca em respostas para a questão posta pelos legionários: Que país é esse?


Foto Luciano Capistrano

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Redinha: os caminhos de preservação da história para além da Antiga Ponte de Igapó.

Redinha: os caminhos de preservação da história para além da Antiga Ponte de Igapó.
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Parque da Cidade


Redinha II

Nostalgia ventos livres jangadas ao mar
capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes
olha a partida, pescadores na madrugada a navegar
ao longe se distancia da praia, vence o quebra mar
entre o céu e o mar, as ondas levam os homens a navegar!

Nostalgia saborear uma ginga com tapioca
no mercado da Redinha na beira mar
longe do outro lado do rio, ver a Fortaleza dos Reis Magos,
e a Ponte Newton Navarro, o antigo e o moderno a dialogar.

Ginga com tapioca de seu Januário, tradição se fez
de Dalila a dona Ivanize, põe azeite de dendê,
rala coco, salga o peixe, como é bom saborear
ginga com tapioca na beira do mar.

Nostalgia festa do caju , procissão, barcos ao mar
clube de pedras domingueiras a bailar,
Os Cão na lama se fizeram
brincantes invadem a Redinha velha
folia de Momo até o Baiacu na vara passar.

Nostalgia Redinha do rio Doce, da África
à Redinha Nova, carnavais e verões
marchinhas e as bandas de metais soprando ritmos
brasilidade pulsante, nativos e veranistas
amantes da Redinha dos meus amores.
(Luciano Capistrano)


          Minha adolescência, e, início da idade adulta, foi marcada por idas a praia da Redinha, morador do Conjunto Santa Catarina, desde sempre fui um frequentador assíduo, cheguei a pular no trapiche, guardo boas lembranças da terra de Nossa Senhora dos Navegantes. Sim, e, ainda morei naquela praia da saborosa “GINGA COM TAPIOCA”.
          A praia da Redinha tem, para o povo católico, a proteção de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira e protetora dos pescadores. Em 1925, foi erguida olhando o mar, a Capelinha, no alto observa a saída e chegada dos pescadores.

Capelinha dos Pescadores - Praia da Redinha

          A Redinha da ginga com tapioca é uma tradição que vem de longe, desde as décadas de 1950 / 1960, com o senhor Geraldo Januário, que era marchante de peixe e fez essa iguaria, assim, passando para a família a receita até as gerações atuais:

Para começar a entendê-la, nada melhor do que prepará-la e saboreá-la. Tratar, temperar os peixes com sal, espetá-los em palitos de coqueiros, colocar um pouco de farinha de mandioca para grudar e fritá-lo em azeite de dendê. Para a tapioca, peneirar a goma, colocar sal, ralar o coco, misturá-lo à goma, colocar em frigideira, e por fim colocar o peixe dentro da tapioca, como um sanduíche. Este é o modo de preparo da ginga com tapioca, desde sua origem, e se perpetuar até hoje, conforme nos contou D. Ivanize em entrevista. (DANTAS, Rebekka Fernandes. Ginga com tapioca: de Dalila a Ivanize, das origens à atualidade. Natal: Sebo Vermelho, 2015, p. 33)

          A Redinha, tem uma ocupação que remonta ao século XVII, praia da região norte de Natal, limita-se com os bairros Potengi, Salinas e Pajuçara, e, também com o município de Extremoz. Tem ainda suas terras banhadas pelas águas do rio Doce, Potengi e o mar. Com uma população de aproximadamente 20 mil habitantes, a Redinha é um lugar de muita beleza.

Redinha

Redinha dos mares
Da capelinha
Igrejinha de pedra
Rogai Nossa Senhora
Pescadores Navegantes saem
As jangadas ao mar
Vento sopra a vela
Faz embarcação navegar
Vencer as ondas
Transpor o quebra-mar
Cotidiano de sol
Sobreviventes jogam a rede
Trazem peixes do mar
Festa do caju
Redinha clube
Saúdam os pescadores
Trabalhadores do mar
Nos dias de folga
Saborear
Ginga com tapioca
No mercado
Na barraca de dona Zefinha
Ao abrir o baú das minhas memórias
Encontro a Redinha de tantas
Histórias.
(Luciano Capistrano)

Da Redinha ver-se ao longe o Forte dos Reis Magos, década de 1920


          Ao finalizar, este “curto” artigo, chamo a atenção, amigo velho, para a importância da preservação da memória deste antigo bairro da urbe: A Redinha, como diz Câmara Cascudo, em uma de suas Acta Diurna, tem registro no mapa de Joanes de Laet, de 1633, onde já é indicado, no referido mapa, a localização de um povoado de pescadores. Este é o desafio, fazer os caminhos de preservação da história para além da Antiga Ponte de Igapó.

A esperança se vestiu de cinza.

  A esperança se vestiu de cinza.               Aqui faço um recorte de algumas leituras que de alguma forma dialogam sobre os efeitos noc...