domingo, 23 de setembro de 2018

Viva a Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural do Brasil

Viva a Literatura de Cordel:
Patrimônio Cultural do Brasil
Luciano Capistrano
Professor e Historiador




“Eis a real descrição
Da história da donzela
Dos sábios que ela venceu
E a aposta ganha por ela
Tirado tudo direito
Da história grande dela”.
(História da donzela Teodora - Leandro Gomes de Barros)

No dia 13 de setembro de 2018, a Literatura de Cordel é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil. Importante ato, pois o Cordel tem a muito tempo uma grande referência na cultura do brasileiro. O dia 13, me fez lembrar de um velho amigo, o senhor Macilon, eu ainda jovem, ainda sem a calvície e os poucos cabelos brancos de hoje, o conheci quando morava no conjunto habitacional Santa Catarina e me fiz de comerciante, tempo em que me aventurei no mundo empresarial das livrarias e papelarias. Pois bem, seu Macilon, todo final de tarde vinha me visitar, na avenida Blumenau, onde localizava-se meu estabelecimento comercial, na verdade uma pequena loja.
O fato é que todo final de tarde, sentados no batente da porta da loja eu e seu Macilon conversávamos sobre a vida e as memórias vividas por aquele senhor, na época eu me achava tão jovem, bem o tempo passa. Em nossas conversas o cordel sempre esteve presente, e, particularmente a História da Donzela Teodora.
Quando vi a notícia do reconhecimento do Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil, me lembrei logo de meu velho companheiro das tardes do Santa Catarina.
Como era gratificante ir aos sábados na feira do conjunto Santa Catarina e procurar cordéis para alimentar minhas conversas com seu Macilon, brincávamos com o fato, dele ser o Macilon do bando de Lampião. Reminiscências de lado, vejamos o mote deste, curto, artigo. A  Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural do Brasil.
A Literatura de Cordel tem o reconhecimento merecido, por muito tempo já aclamado como Patrimônio do povo brasileiro, agora recebe o reconhecimento oficial. Leandro Gomes de Barros, considerado o pai do cordel, deve está comandando lá no céu a celebração da poesia sertaneja. Uma literatura, tão fundamental quanto a dita erudita. Neste quesito me filio ao campo dos estudiosos da cultura que não fazem distinção entre, popular e erudito, poesia é poesia e ponto. Como nos ensina o poeta e pesquisador Aderaldo Luciano:

Vamos abrir um parêntese para divertir que aqui não desejamos fazer distinção entre o que se denomina literatura popular e o que se determina literatura erudita. Para nós existirá Literatura. Não haverá, pois, para nós, poesia popular, a cuja abrangência reservou-se vincular o cordel. Essa distinção, segundo percebemos, reside na forma preconceituosa e excludente com que as elites intelectuais sempre trataram as produções que não saíssem de suas lides ou que não seguissem os seus ditames. Popular seria aquela poesia produzida pelo “povo”, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, frequentadora da escola e detentora do poder econômico.(ADERALDO, Luciano. Apontamentos para uma História Crítica do Cordel Brasileiro. São Paulo: Editora Luzeiro, p. 17, 2012).

É neste sentido que penso a literatura de cordel, como uma forma de expressão nascida entre as camadas mais populares, agora sem o ranço, ainda presente entre alguns segmentos, de uma literatura “menor”. Não a distinção das formas de poesias, não se justifica a divisão: erudita e popular, principalmente quando acompanhado do viés preconceituoso.  A poética cordelista, tem uma vastidão temática, como acentua o pesquisador Irani Medeiros:

O cordel usa tudo, ou quase tudo. como motivo para criação dos folhetos dos poetas populares. Desde os romances tradicionais - Carlos Magno e os Doze Pares de França, a Imperatriz Porcina, João de Calais, etc -, que nos chegaram da Idade Média, através do romanceiro ibérico, sendo aqui readaptado à ecologia e aos sentimentos nordestinos, até assuntos históricos brasileiros, fatos ligados à religiosidade, ao misticismo, à vida campestre, crimes, acontecimentos mais recentes da atualidade universal[...] (MEDEIROS, Irani. Leandro Gomes de Barros: no reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Editora Idéia, 2002, p.13)
Nos tempos do “Cantinho do Poeta”, do saudoso cordelista Zé Saldanha, o dia 13 de setembro teria sido saudado com muita alegria. Ao lado de Bob Mota, Zé Saldanha deve ter feito, lá no céu, versos celebrando a Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural do Brasil.
Enfim, finalizo, agradecendo aos resistententes cordelistas, em nossa cidade representados na Casa do Cordel e na Estação do Cordel, lugares vivos, localizados no bairro Cidade Alta.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A memória virou cinza!

02 de setembro de 2018: a memória virou cinza!
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

Museu Nacional

Vestígios
Da humanidade
Em minutos
Cinzas... nada mais.
(Luciano Capistrano)


A noite de domingo, dia 02 de setembro, ficará marcada como o nosso “trágico setembro”. Perdemos, a sociedade brasileira perdeu, confesso, não resisti, fui às lágrimas ao ver o Museu Nacional em chamas. Imagem do terror, um terror a muito anunciado, pois, há anos, as Instituições Científicas e de Ensino, sofrem o descaso, de gestões públicas indiferentes a produção do conhecimento.
As chamas, consumiram em poucas horas anos e anos de pesquisas, de estudos, do acervo repleto de raridades, nos diversos campos do conhecimento. Em junho, passado, o Museu Nacional, completou 200 anos de existência, em sua trajetória seu acervo foi enriquecido, chegando a um número grandioso: 20 milhões de itens, fazendo do seu acervo um dos mais importantes do mundo.
Luzia, fóssil mais antigo da América, encontrado no Brasil, uma mulher de mais de 11.000 anos, não resistiu aos desmanches ou a não existência de políticas públicas preservacionistas de nossa memória. Nossas casas de memórias, estão em risco.
O fogo transformou em cinzas raridades,como por exemplos, pergaminho datado do século XI com manuscritos em grego sobre os quatro Evangelhos; a Bíblia de Mogúncia, de 1462, primeira obra impressa a conter informações como data, lugar de impressão; a crônica de Nuremberg, de 1493, considerado o livro mais ilustrado do século XV, com mapas xilogravados tidos como os mais antigos impressos em livro, estes são apenas uns dos milhões de documentos perdidos.
Criado por Dom João VI, ocupando um belíssimo prédio histórico, o Palácio São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, residência real, desde a chegada da família imperial portuguesa, em 1808, foi a partir de 1892 instalado o museu.
Na semana da pátria, quando a sociedade brasileira celebra a Independência, somos tomados pelo sentimento de perda, no que existe de mais simbólico, quando pensamos em uma identidade nacional, nossa memória se esvaiu nas chamas da irresponsabilidade de gestores malfeitores da coisa pública.
Nossa cidade Natal, como o Brasil, carece de uma política de valorização dos arquivos e museus, como espaços guardiões de nossa memória. Nestes lugares, apesar da boa vontade dos seus funcionários, falta infraestrutura e equipamentos adequados para a conservação do acervo.
Um exemplo, bem ilustrativo, da situação destes lugares de memória, são o arquivo Público Estadual e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Volto a repetir, meu caro leitor, nossos arquivos contam com profissionais comprometidos na preservação da documentação pertencentes aos seus acervos.   
Acervos em situação de risco. Coleções de jornais, manuscritos, fotografias, livros de óbitos, diversos tipos de documentos, enfim, encadernados, mas impossibilitados de serem consultados, pois, o estado em que se encontram correm riscos de abertos, se desmancharem, virarem pó.
Urgente faz necessário, desenvolver políticas públicas referentes a preservação dos acervos guardados nestes lugares de memória. Os arquivos públicos ou particulares e museus, não podem serem tratados como, “lugar de mortos”, e sim “lugar de vivos”. Espaços em que encontramos o pulsar das gerações passadas, fazedores do amanhã. Aos órgãos de preservação da memória nacional, resta efetivar uma política de salvaguardar os acervos deixados por nossos antepassados. Uma política que contemple dois vieses: a organização dos arquivos e museus e o desenvolvimento de Educação Patrimonial. Deste modo, o indicativo infraestrutura e educação caminhando de mãos dadas na guarda dos “tesouros da história”.
O Patrimônio Histórico/Cultural, necessita de proteção, e, não basta apenas uma legislação faz necessário uma ação de Estado, uma Política Pública de gestão deste Patrimônio. 02 de setembro de 2018: a memória virou cinza!


Foto: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - Luciano Capistrano

domingo, 1 de abril de 2018

1964: aconteceu em abril


1964: aconteceu em abril
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Semurb/ Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte

Entre gritos, insanidade
Autoritária
Nas casas dos horrores
Trucidam as
Liberdades
Fez escuro a nação verde-oliva
Ergue-se figuras fascinoras
Ustra e CIA!
(Luciano Capistrano)


               Na madrugada do dia 31 de março de 1964, “tropas do IV Exército partem de Juiz de Fora/MG em direção ao estado da Guanabara”, os ouvintes da Rádio Mayrink Veiga, acordaram com essa notícia. Era a marcha do obscurantismo, dava início, assim, a interrupção do processo democrático brasileiro, 
               31 de março de 1964, é o ato final de um complô articulado por forças militares e civis,  sobre a tutela norte-americana com a finalidade de manter e ampliar os interesses dos EUA no Brasil. Fez-se noite a democracia.
          O início dos anos 1960 no Brasil é caracterizado pela falência do populismo enquanto projeto político que garantia a permanência da burguesia no poder, cujo alicerce está na aparente harmonia entre as classes sociais. Sobre esta função política do populismo o historiador Jacob Gorender afirma: O populismo foi a forma da hegemonia ideológica por meio da qual a burguesia tentou – e obteve em elevado grau – o consenso da classe operária para a construção da nação burguesa. A liderança carismática e sem mediações formalizadas, adequadas a massas de baixo nível de consciência de classe, constituiu a expressão peculiar do populismo. Não sua essência, concentrada nas ideias de colaboração de classes e paz social (GORENDER, 1998, p.16).
            Neste sentido, o populismo é um dos instrumentos em que a elite apoiou-se para constituir e manter a ordem burguesa, pelo menos até quando se sente ameaçada por uma classe operária que nasce com esta política populista e a cada momento adquire uma maior consciência de classe. Deste modo: O populismo é um movimento representativo, fundamentalmente, da concomitância do controle da cúpula do poder econômico político pela burguesia brasileira, sob as transformações trazidas pelo novo setor da burguesia industrial, com a cooptação, para esse processo, do proletariado emergente. Constitui uma aliança de classes, frouxa, mas durável, que perdura do fim do Estado Novo até a crise do governo Goulart. Um período que se estende de 1945 a 1964. Esse processo está caracterizado por uma reorganização de alianças dentro da sociedade brasileira (JAGUARIBE, 1985, p.13).
       Confirmando o que foi dito, anteriormente, sobre o populismo, Dreifuss (1981) apresenta a candidatura de Jânio Quadros como sendo “a última tentativa eleitoral civil do grande capital para conseguir compartilhar o poder de Estado com o bloco populista vigente”. Quando da reúncia de Jânio, em agosto de 1961, o vice-presidente, João Goulart, encontrava-se em visita diplomática à China. Nesse momento da Guerra Fria, os setores dominantes entraram em pânico, temerosos de que João Goulart assumisse o poder, porque as forças conservadoras mostravam o perigo de qualquer aproximação com países comunistas.
       João Goulart marcou sua trajetória política. Desde o governo de Getúlio Vargas, quando foi ministro do trabalho, por sua proximidade com os setores organizados da sociedade, principalmente os representantes da classe trabalhadora. Herdeiro político de Vargas pautou sua vida política na defesa intransigente das conquistas trabalhistas. 
A posição de desconfiança dos setores dominantes da sociedade, em relação ao governo Goulart, é confirmada por René Dreifuss, em A Conquista do Estado: João Goulart tornou-se presidente, contrariamente às expectativas dos empresários multinacionais e associados, bem como da estrutura militar de direita. Com a ascensão de João Goulart ao governo, o bloco multinacional associado, que estava na iminência de perder sua posição econômica privilegiada, preparou-se para restringir as demandas populares e reprimir os interesses tradicionais pela imposição de meios extra políticos. Os interesses multinacionais e associados começaram a articular um bloco civil-militar de tendências cesaristas que, no fim, tanto subverteria a ordem política populista quanto conteria as aspirações nacional reformistas (DREIFUSS, 1981, p. 130).
         Esta articulação de um bloco civil-militar, apontada por Dreifuss, com a finalidade de conservar os privilégios das multinacionais e associados, rompendo a ordem constitucional não era nenhuma novidade na política brasileira. A derrubada do governo de João Goulart representou na verdade a vitória de um grupo político que ao longo dos governos populistas sempre cogitou a possibilidade de os militares assumirem o poder, preservando, deste modo, seus interesses. Tancredo Neves, primeiro-ministro do governo Goulart, testemunha ocular dos grandes episódios da República desde Vargas até o fim do regime militar, esclarece a relação do golpe militar de abril, com outros momentos da história republicana: Eu acho que o suicídio (do presidente Getúlio Vargas, 25 de agosto de 1954) teve realmente como consequência a eleição de Juscelino ( Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito presidente da República em 1955). Mas o suicídio também adiou 64. Você verifica: as lideranças de 64 são as mesmas de 54, com os mesmos objetivos. 64 foi uma revolução de direita, uma revolução conservadora, uma revolução nitidamente pró-americano, feita, inclusive, com a participação deles, americanos, que já tinham participado em 54. Para mim, este é o aspecto mais importante do suicídio de Vargas. Você verifica também que o Jânio, em 61, foi, na verdade um cripto-64. O Jânio teve uma cobertura enorme de todos os elementos que fizeram 64 (NEVES apud COUTO, 1999, p.54).

1964: aconteceu em abril*
(Para Mailde)

Abril tempos de repensar
Falar é necessário
Democracia liberdades em risco.
Décadas de uma legalidade interrompida
Dias sombrios
Golpe não revolução!
21 anos de obscurantismo
Torturas
Prisões
Desaparecidos políticos!
(Luciano Capistrano)
*Livro de Mailde Pinto Galvão.
(Luciano Capistrano)

REFERÊNCIAS

COUTO, Ronaldo Costa. História indiscreta da ditadura e da abertura: Brasil (1964-1985). Rio de Janeiro: Record, 1999.

DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1998.

JAGUARIBE, Hélio. Sociedade e política: um estudo sobre a atualidade brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

segunda-feira, 26 de março de 2018

De cinemas e memórias: Divagações


De cinemas e memórias: Divagações
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: SEMURB/Parque da Cidade

Quando criança, além das brincadeiras de rua, o que me animava era a ida ao cinema, quanta alegria nos domingos, quando papai e mamãe levavam eu e meus irmãos para ver a sétima arte. O Rio Grande, o Rex, o Cine Nordeste e o Panorama, fazem parte de minha memória afetiva, tempos bons, filmes, brincadeiras, pipocas com guaraná “champanhe” e, nos dias de “esbanjamento”, tinha torrada com vitamina de abacate na Casa da Maçã, delicias.
Uma época de cidade pacifica, andávamos sem preocupação com a violência, assaltos era coisa rara de acontecer.
Nestes dias, de crises, ‘carne fraca”, “lava jato”, “golpe”, violência sem limite, dias de tantas interrogações, aproveitei para reler alguns livros, entre eles “Écran Natalense”, clássico sobre a história do cinema em Natal, obra de referência para quem deseja conhecer os caminhos da história cinematográfica potiguar. Anchieta Fernandes, pesquisador e participe da cena urbana de Natal, enveredou com outros amantes do cinema pelos caminhos dos Cine Clube Tirol, “movimento” importante na difusão entre parte da juventude dos anos de 1950/1960, da Sétima Arte, o pesquisador nos presenteia com uma excelente publicação, do Sebo Vermelho, sobre este universo da “telona” na cidade de Natal.
Publicado em 1992 “Écran Natalense” é leitura obrigatória para quem deseja conhecer o mundo do cinema em Natal. O Cine Nordeste, por exemplo, é apresentado por Anchieta Fernandes:

Quase ao final da década de 50, Natal teve inaugurado seu primeiro cinema com ar condicionado. O Cine Nordeste, da Cireda. A primeira sessão para o público foi a 20 de dezembro de 1958, exibindo o filma “O Príncipe e a Parisiense”, do diretor francês Michel Boisorond. [...] {lembranças} do tempo em que passava o Cinema de Arte no Nordeste, e todos íamos conversar nas mesas da Sorveteria Oásis, tomando algum sorvete ( a preferência era por sorvete de abacate) antes de começar a sessão. A sorveteria hoje não existe mais, e seu espaço agora é ocupado pela Farmácia Padre João Maria. (FERNANDES, Anchieta. Écran Natalense. Natal: Sebo Vermelho, 1992, p.119-123)

          Hoje, muito em decorrência da violência e da comodidade encontrada nos shoppings, não temos mais os “cinemas de rua”, as grandes salas de cinema, do bairro da Cidade Alta ao bairro do Alecrim, desapareceram. A geração atual, chega a ficar “espantada” , quado dizemos, “sim, o Alecrim tinha cinema”:

Se indagássemos aos jovens do século XXI sobre cinemas em Natal, muitos falariam das salas cinematográficas que existem nos shopping centers da capital. A maioria não se recorda das salas de cinema do Rex, Rio Grande, Nordeste, Panorama e Rio Verde, famosas nas décadas de 1970, 1980 e primórdios da década de 1990, nem daquelas localizadas na Cidade Alta, Rocas ou Petrópolis. Mas era no bairro do Alecrim onde se concentrava o maior número de salas de cinema da cidade entre as décadas de 1920 e 1950, frequentadas em sua juventude por avós, tios e pais.( ALVEAL, Carmen M. O. etal . Memória minha comunidade: Alecrim. Natal: SEMURB, 2011, p.114)

          De cinemas e memórias: divagações, como uma colcha de retalhos, feita por minha avó Paulina, vou caminhando na estrada de Clio, buscando compreender a urbe e suas resignificações ao longo do tempo. A cidade traz na sua essência a transformação da paisagem, os lugares ganham em tempos outros, funções diferentes e assim, entre o antigo e o novo, me encontro, neste tempo presente a olhar o passado.
           Ao fazer este percurso sobre o “asfalto” do passado, sigo as palavras do Historiador Jacques Le Goff: “A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”. (GOFF, Jacques Le. História e memória. Campinas: Editora Unicamp, p.471)
         Enfim a cidade cresceu - os cinemas de ruas, encontraram abrigos nos shopping centers, as conversas de calçadas, na “boca da noite”, são momentos raros, as ruas viraram espaços temerários -, as incertezas, neste caldeirão dos tempos presentes, é o que temos de mais promissor. Nos resta escrever e provocar o dialogo sobre os caminhos e descaminhos da urbe.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Da morte do estudante Edson Luís ao famigerado AI5: Sangra-se as liberdades.


Da morte do estudante Edson Luís ao famigerado AI5:
Sangra-se as liberdades.
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Semurb/ Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte


           No dia 28 de março de 1968, um jovem estudante secundarista, Edson Luís de Lima Souto, foi morto em um conflito entre estudantes e a Polícia Militar. O cenário de “guerra” aconteceu no restaurante Calabouço, o uso de armas de fogo, por parte das forças de segurança pública, causou a morte de um jovem, em meio ao agitado ano de 1968. Nesta época, os “ventos” vindos de diversas partes da Europa, principalmente da França, incentiva, em todo Brasil uma reação de parte da sociedade contraria ao rompimento do processo democrático ocorrido com o golpe militar civil de 1964.
          O ano de 1968 é um capítulo importante na mobilização contra o golpe, as praças são ocupadas, o grito por democracia ecoa em diversos lugares do país. A morte de Edson Luís, causa uma comoção em setores, antes silenciados, a classe média vai as ruas protestar contra as ações autoritárias implantadas com os generais presidentes. Conforme o Historiador Carlos Fico:

O impacto na opinião pública foi muito grande. A censura rigorosa da imprensa ainda não havia sido implantada, de modo que os jornais puderam noticiar o ocorrido, inclusive com fotos dramáticas do cadáver do jovem morto. […] Uma faixa exibia frase contundente para a classe média: “mataram um estudante: podia ser seu filho.” […] A morte de Edson Luís gerou protesto pelo Brasil afora […] O governo decidiu reprimi-las. No dia 4 de abril, a polícia montada atacou as pessoas que saíam da missa de sétimo dia de Edson Luís na igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. (FICO, Carlos. São Paulo: Ed. Contexto, p. 63-64, 2015).

        A livre manifestação é reprimida, em uma demonstração de força autoritária, os militares impunham a “paz” das baionetas, muitos foram os casos de ataques, como o ocorrido durante a missa de sétimo dia, quando o as escadarias da igreja de Nossa Senhora da Candelária, na cidade maravilhosa, testemunhou a truculência, como salientou Carlos Fico.

A palavra
Silenciada
Não é Palavra
É calabouço.
(Luciano Capistrano)

          A sociedade brasileira viveu dias de idas e vindas, nas veredas das liberdades, os movimentos sociais, espalharam por todas as regiões ações de mobilização contras as atitudes repressivas, abria-se uma “fresta” nas portas do arbítrio. O mês de junho é marcado por um dos mais fortes atos em defesa das garantias individuais, a “Marcha dos Cem Mil”. Sobre este momento, o Historiador Jacob Gorender, em Combate nas trevas, faz a seguinte observação:

O dia 26 de junho marcou o momento de auge com a Passeata dos Cem Mil, que se concentrou na Cinelândia carioca e percorreu a avenida Rio Branco, até a Praça Quinze. […] Presentes vedetes da música popular, da televisão e do teatro, escritores, jornalistas e políticos, professores e líderes sindicais. Tal a repercussão que o Presidente Costa e Silva se dispôs a receber em Brasília a comissão representativa dos organizadores da passeata. Nada resultou do diálogo, mas esta foi a única e última vez que um general-presidente concedeu a uma comissão popular. (GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. São Paulo: Ed. Ática,p. 148, 1997)

       O ano de 1968, com  março marcado com o sangue do jovem Edson Luís, e, junho com a grande marcha dos Cem Mil, não terminou bem para o restabelecimento da democracia. Em 13 de dezembro, o governo do general-presidente, decreta o Ato Institucional n. 5. Este famigerado AI-5, dotou o general-presidente de poderes ditatoriais. Fecha-se o Congresso Nacional, faz escuro a democracia.

1964… sangra-se liberdades!

Memórias das noites sombrias
Sob o manto do medo
Tortura-se
Prende-se
Exila-se
Silencia-se
Desaparecidos políticos.

Memórias das noites sombrias
Sob o manto do medo
Censura-se
O pensar
Mordaça-se
A fala
Democracia interrompida
1964… sangra-se liberdade!
(Luciano Capistrano)

       Nestes tempos de democracia em risco, façamos o bom diálogo, lembrar para não repetir. Finalizo, com essa provocação: Da morte do estudante Edson Luís ao famigerado AI5: Sangra-se as liberdades.

domingo, 18 de março de 2018

Da Ribeira às Quintas: a leitura da urbe através dos seus poetas, cronistas, fotógrafos. Inquietações!


Da Ribeira às Quintas: a leitura da urbe através dos seus poetas, cronistas, fotógrafos. Inquietações!
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: SEMURB/Parque da Cidade

O poeta e folclorista Deífilo Gurgel nos transporta em sua poesia a Ribeira Velha de Guerra, uma Ribeira de um tempo passado, uma Ribeira a permanecer na escrita de cronistas e memorialistas, presente ainda, em fotos amareladas guardadas em empoeirados arquivos. Diz o poeta:
[ ... ]
Em frente ao ‘Cova da Onça’,
Parrepistas liberais
Trocam mais que insultos, tiros.
Morre o povo, corre o povo,
Que todos somos mortais.

Tabuleiro da Baiana”,
Fumaça” serve cartolas
- banana, queijo e canela –
Para a fome dos bacanas.

Ai perto, o Potengi
delira em festas, é tarde
de regatas, o sol arde
e arde o povo, em frenesi
[ ... ]

Ribeira velha de guerra,
às tuas noites de paz,
retornam velhas figuras
que os anos não trazem mais.
[ ... ]
( Deífilo Gurgel – Os Bens Aventurados, 2005)

A poesia caminha na nostalgia, falando de um lugar distante no tempo, um lugar vivo na memória de quem ao andar no largo do Teatro Alberto Maranhão, onde hoje funciona o museu de cultura popular Djalma Maranhão, antes de ser erguida a antiga rodoviária, encontrava-se o Tabuleiro da Baiana, lugar de encontro da boêmia da cidade que se fazia “metrópole”, ainda muito provinciana.
        A cidade de Natal tem na Ribeira um dos seus primeiros bairros. Lugar de canguleiros, lugar berço das atividades comerciais. Região portuária, tem na rua Chile, antiga rua do Comércio, às marcas, o testemunho das embarcações embarcando e desembarcando produtos, viajantes saindo e chegando na terra do rio grande, fervilhando vida no Cais da Tavares de Lyra. Era um prenúncio de uma urbe em rota de desenvolvimento.
Bairro das grandes lojas, a Ribeira era o centro comercial, lugar chic de Natal, como bem informou Lair Tinôco, em Tempo de Saudade, saudosa, assim se refere ao bairro de suas memórias:
A Ribeira era formada de comércio e residências. A rua Dr Barata era a rua chic da cidade, isto no que diz respeito aos seus estabelecimentos comerciais. Destes estabelecimentos salientavam-se “A Formosa Síria Armazém Potiguar”, “Armarinho Santa Terezinha”, Tácito M. Brandão”, “Relojoaria Farache”, “Sapataria Nolasco”, “Casa Lux”, “Sérgio Severo”, com ótimas representações, entre elas, rádio Philips, Holandeses legítimos, além de outros tantos estabelecimentos. ( TINÕCO, 1992, p. 48)
          Percebe se na fala/escrita de Lair Tinôco, o quanto era importante o comércio, deste que é apontado por alguns como o segundo bairro a ser criado em nossa cidade, uma circulação de mercadorias e pessoas davam ao bairro no início do século passado, nas primeiras décadas do século XX, uma feição de cidade polo, fazendo jus ao título de capital do Rio Grande do Norte, condição muitas vezes posta em questão por ter ao longo do tempo um desenvolvimento econômico inferior a outros municípios potiguares, como por exemplo Macaíba, cidade vizinha , Macaíba exerceu até o início do século XX, intensa atividade econômica, tendo sua balança comercial em alguns momentos ultrapassado a capital do estado. O empório instalado naquele município por Fabricio Gomes Pedroza, transformou o porto do Guarapes, em diversos momentos, mais movimentado do que o porto de Natal. Os desafios enfrentados por antigos administradores foram enormes. Em fins do século XIX, já existia por parte de comerciantes uma demanda com relação a modernização do porto da capital potiguar, como bem assinala a professora Giovana Paiva de Oliveira, em De Cidade a Cidade:
Por sua vez, o comércio local reivindicava também as obras de melhoramento do porto de Natal, pois dependia da compra de mercadorias em centros produtores, e a entrada da barra do rio não permitia o acesso de vapores de maior porte. Acreditava-se que superado esse obstáculo, o comércio natalense importaria diretamente, inclusive da Europa, facilitando o abastecimento da cidade. ( OLIVEIRA, p.45, 1999)

        Essas intervenções urbanas possibilitaram ganhos para a cidade, com o porto ampliado ocorreu uma intensificação das atividades comerciais entre a capital com os outros municípios e com outros estados, deste formatando novas perspectivas econômicas para os potiguares. Esse aspecto comercial da Ribeira, suas lojas, seus comerciantes, é bem registrado na obra Comerciantes e Firmas da Ribeira (1924 -1989)) – Reminiscências , Júlio César de Andrade, faz uma verdadeira “peregrinação” por ruas fervilhantes do ponto de vista comercial. Entre outras ruas e avenidas Andrade destaca a rua Dr Barata, conforme suas memórias: “Era o local de comércio chique da cidade. Aqui ficavam as principais casas da moda, por isso o lugar indicado para o footing”. Na época da 2ª Guerra Mundial o movimento e os negócios ali mais cresceram”.(ANDRADE, p. 69, 1989)
    Um ponto interessante para ser lembrado sobre a Ribeira é o encontro da intelectualidade natalense nas livrarias de intelectuais, estudantes, enfim, homens e mulheres amantes dos livros e de uma boa prosa. Assim:

[ ... ] na frente da Livraria Cosmopolita, reúne-se, todas as tardes, uma turma de primeira grandeza, de homens sérios, bem instalados na vida. O mais assíduo é o Dr. Nestor Lima, advogado famoso, presidente do Instituto Histórico, membro de todas as sociedades literárias da terra. Ali também assinam o ponto os juristas de notável saber, austeros desembargadores. Na Livraria Internacional, de João Rodrigues, depois de uma rápida passagem na Loja de Livros, de Santana e na Agência de Luís Romão, reúne-se a turma mais moça [ ... ] A Livraria Lima, de João Nicodemos de Lima, não é somente ponto de intelectuais, como também de estudantes [ ... ] Mas a freguesia da Livraria de João Nicodemos é principalmente ao “sebo” de livros velhos lá existente, onde encontra obras de real valor, misturados com aranhas caranguejeiras ... (MARANHÃO, p.61-62, 2004)

       Neste universo das escritas, reminiscências, poesias, crônicas, pesquisas acadêmicas, enfim, memórias são construídas ou preservadas de uma urbe do passado, além destes caminhos trilhados para adentrarmos a uma cidade não mais existente, a fotografia também se reveste como um importante instrumento de compreensão das transformações ocorridas ao longo do tempo. A cidade é sua escrita:
[...] Por vezes imperceptível na paisagem de um dia a outro, este deslocamento da escrita urbana deixa-se registrar e entrever na longa duração. [...] Este “deslocamento social do espaço” também acaba por se constituir em uma forma de escrita que pode ser decifrada. As motivações para este deslocamento podem ser lidas pelo historiador: a história da deterioração de um bairro pode revelar a mudança de um eixo econômico ou cultural, uma reorientação no tecido urbano que tornou periférico o que foi um dia central ou ponto de passagem importante. (BARROS, p.41-42, 2012)

São cenários, paisagens, ordenamentos, fronteiras, expansão do território urbano para depois dos limites do canal do Baldo, subida do areal do cemitério do Alecrim, antes zonas rurais, compondo deste modo a paisagem histórica da cidade de Natal. A cidade escrita – façamos a leitura da urbe através dos seus poetas, cronistas, fotógrafos -, diz da Ribeira que subiu a ladeira e expandiu-se por dunas e se estendeu para além das Quintas. Enfim, são inquietações, façamos o diálogo sobre a história e os caminhos da urbe.

REFERENCIAS
ANDRADE, Júlio César de. Comerciantes e firmas da Ribeira (1924 – 1989) – Reminiscências. Natal: Fundação José Augusto, 1989.
BARROS, José D’Assunção. Cidade e história. Petrópolis: Editora Vozes, 2012)
MARANHÃO, Djalma. Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata, centro convergente e irradiador da vida natalense. Natal: Sebo Vermelho, 2004. (Org. Notas e Pesquisa: Cláudio Galvão)
OLIVEIRA, Giovana Paiva de. De cidade a cidade. Natal: EDUFRN, 1999.
TINÔCO, Lair. Tempo de saudade. Natal: Fundação José Augusto,1992.


                  Teatro Alberto Maranhão - Foto João Galvão - Década de 1920 - Acervo IHGRN


      Porto de Natal - Década de 1910 Foto Bruno Bourgard Acervo IHGRN









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