domingo, 12 de maio de 2019

Mailde Pinto Galvão, obrigado!


Mailde Pinto Galvão, obrigado!
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

1964: aconteceu em abril*
(Para Mailde)

Abril tempos de repensar
Falar é necessário
Democracia liberdades em risco
Tempos de uma legalidade interrompida
Dias sombrios
Golpe, não revolução!
21 anos de obscurantismo
Torturas
Prisões
Desaparecidos políticos!
*Título do livro de Mailde Pinto Galvão
(Luciano Capistrano)

            Conheci Mailde Pinto Galvão, através do seu livro 1964: aconteceu em abril, uma publicação da Livraria Clima, do saudoso livreiro Carlos Lima, faço aqui um pequeno parêntese, para dizer da importância do livreiro da rua dr. Barata, o homem da Livraria Clima, para as letras potiguares. Grande Carlos Lima. Bom retornemos ao texto.
            Mailde Galvão em seu 1964: aconteceu em abril, encontrei um relato pujante sobre os dias que se seguiram a tomada do Poder pelos golpistas, militares e civis associados, desferiram um golpe a frágil democracia brasileira. Em seu relato escancara as ações ocorridas em solo potiguar, tecendo um cenário com diversos personagens e suas atitudes perante a defesa ou o ataque ao regime democrático.
Na dedicatória um silencioso desabafo de quem sofreu as agruras dos perseguidos injustamente por um Estado autoritário:” É igualmente, a oportunidade para lembrar e agradecer os gestos de solidariedade que todos nós, os “subversivos”, recebemos de pessoas que participaram da nossa história.”(PINTO, Mailde Galvão. 1964: Aconteceu em abril. Natal: Clima, 1964)
Mailde Pinto, aproveito a oportunidade para lhe agradecer, in memória, pela coragem e altivez com que enfrentou as tribulações e por ter publicado tão importante contribuição para nossa história. Gratidão.
Não é fácil para quem vivenciou o trauma da prisão, os anos das liberdades proibidas, falar ou escrever sobre este período de nossa história. Como disse Mailde Pinto(1994, p.1):

Este relato de fatos ocorridos em 1964 tem a pretensão de contribuir para o conhecimento da história do golpe militar no Rio Grande do Norte, focalizando, preferencialmente, os acontecimentos que atingiram a Prefeitura Municipal de Natal, nos quais fui envolvida, com alguns companheiros de trabalho do setor de educação e cultura do município. 
Por dificuldades emocionais, muitas vezes tive que interromper esta reconstituição; mas eu vivi, sofri e sobrevivi à perseguição da ditadura. Sinto-me, pois, moralmente comprometida a tirar da escuridão as minhas lembranças reprimidas.

            Mailde Pinto Galvão, participou de um dos grandes projetos de educação já ocorrido na cidade de Natal, na Campanha de Pé No Chão Também Se Aprende A Ler, durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão. Seu crime o de ter trabalhado em uma administração perseguida por:

[...] alfabetizar vinte e cinco mil crianças, na primeira campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, reconhecido pela UNESCO como válida para as regiões subdesenvolvidas do mundo, num país de humilhante maioria de analfabetos, e lutar para dar ao povo acesso às fontes do saber, no plano de democratização da cultura. 
[...] fazer feira de Livros, de construir uma galeria de arte e estimular o teatro do povo. De restaurar e promover a revalorização dos autos folclóricos. De abrir bibliotecas populares que estabeleceram recordes nacionais de empréstimos de livros, numa cidade que não tinha nenhuma biblioteca pública. (GÓES, Moacyr de (org.) Dois Livros de Djalma Maranhão no Exílio. Natal: Prefeitura Municipal do Natal, 1999, p. 262).

            Aconteceu em 1964 uma ruptura da democracia, governos como o de Djalma Maranhão foram interrompidos e seus gestores presos ou exilados, seus programas interrompidos. Neste sentido faço neste artigo ao trazer a memória de Mailde Pinto, um canto de lembranças destes tempos sombrios vividos pela sociedade brasileira.
 Hoje vivemos uma tal onda de revisionismo histórico a fazer nos lembrar dos embates historiográficos na Alemanha dos anos 1980. Vozes como a do historiador Ernst Nolte com sua tese de justificativa do nazismo alemão. Conforme diz a historiadora Ana Lima Kallas, em seu artigo Usos públicos da história: origens do debate e desdobramentos no ensino de história, “Segundo Nolte, diante de tantos massacres em massa no século XX, tais como os realizados pelos Estados Unidos no Vietnã e o Gulag soviético, os alemães ocidentais deveriam ficar em ‘paz consigo mesmos’ e deixar ‘o passado em passar’”(Revista de História Hoje, vol. 6, nº 12, p.132, 2017).
Enfrentar o passado e não deixar passar os traumas vividos nos pós 1964 pela sociedade brasileira é uma função urgente dos historiadores.
Ao abordar esse tema a luz de relatos como o de Mailde Pinto Galvão, faço um convite para embarcarmos na locomotiva do passado e de forma clara compreender os caminhos de nossa história recente. Pois:

De fato, o Golpe Militar de 1964 pode ser acusado de muitas coisas menos de ter sido uma mera quartelada. Havia muito, tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), fundado em 1962 por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe vinha sendo tramado havia tempos ficou registrado nos documentos da operação ‘Brother Sam’, através da qual se prevê, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano ‘doaria’ 110 toneladas de armas e munições ao Exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento, não é surpreendente que a instituição militar apresente um projeto próprio de desenvolvimento para o país – aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, tal projeto consiste em retomar o modelo implantado em fins da década de 1950, aquele definido como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais. (DEL PRIORE, Mary; VENANCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010, p. 275 e 276)

            Mailde Pinto, 1964 aconteceu antes de abril e ainda acontece, quando nos vemos diante de uma onda revisionista a dizer equivocadamente ter sido o golpe Militar/Civil-1964 um movimento ou uma “ditabranda”. Mailde Pinto Galvão obrigado por ter deixado um relato sobre os tempos sombrios ocorridos na Natal da década de 1960.
            Façamos de nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.
           

           




quarta-feira, 8 de maio de 2019

Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação



Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação 
Luciano Capistrano 
Professor e Historiador 


Uma cidade não se abre 
Fácil, como um guarda-chuva, 
A quem sequer não a tem. 
Uma cidade é como a luva: 
Sem o gesto e a medida 
Exatos de quem a calça, 
Jamais se entrega a alguém 
Por mais força que se faça 
Para tê-la ou possuí-la. 
Pode tê-la, mais sem uso, 
Simples adorno ocultando 
A sua alma ao intruso... 
(Romance da Cidade de Natal – Nei Leandro de Castro) 



         A cidade é um lugar de múltiplas identidades, andar por ruas e vielas é viver uma rica experiência do espaço urbano. Em meu ofício de historiador me encaminhei pelos caminhos sinuosos da cidade de Natal em busca de compreendê-la, entender sua expansão ao longo do tempo. A cidade, como diz a poesia de Nei Leandro de Castro “não se abre fácil”. Neste percurso, trilhei as veredas abertas por memorialistas, cronistas, poetas, fotógrafos, urbanistas, historiadores, enfim, por escritos sobre o espaço urbano. 
           O historiador José D’Assunção Barros, nos dá pistas para abrir as veredas da cidade de forma a nos apropriarmos de seus significados. Caminhar pelo espaço urbano é então um exercício do olhar edificações, praças, monumentos, ruas... gentes. A cidade é um texto aberto: 

Uma última implicação da metáfora da cidade como texto ou como discurso é a de que o complexo discurso urbano aloja dentro de si diversos discursos de todas as ordens. A cidade também fala aos seus habitantes e aos seus visitantes através dos nomes próprios que ela abriga: dos nomes de ruas, de edifícios, de monumentos. O grande texto urbano aloja dentro de si textos menores, feitos de placas de ruas que evocam memórias e imaginários, de cartazes que são expostos nas avenidas para seduzir e informar, de sinais de trânsito que marcam ritmo da alternância entre a paisagem permitida e os interditos aos deslocamentos no espaço. A cidade é um grande texto que tece dentro de si uma miríade de outros textos, inclusive os das pequenas conversas produzidas nos encontros cotidianos. (BARROS, José D’Assunção. Cidade e História. Petrópolis: Vozes, 2012, p.45) 

           O Patrimônio Cultural é o percurso mais seguro para desvendar a cidade. Natal com seu acervo a céu aberto nos ensina sobre sua história, descer a ladeira da avenida Câmara Cascudo tem um sentido de sala de aula. São os sinais das intervenções realizadas na década de 1910, a balaustrada, as iluminarias, o bonde elétrico, as novas edificações, dando uma nova ressignificação ao espaço urbano. O relógio a marcar o tempo de quem descia ou subia a ladeira, sobre os olhares dos estudantes do Atheneu e as orações dos membros da Igreja Presbiteriana. 
           O tempo, implacável, segue o sinal da fábrica de tecido, lá no “pé da ladeira”, fronteira dos Xarias e Canguleiros, marcas de um passado guardado nas Actas Diurnas de uma cidade que cresceu para além das Quintas. 
             Neste emaranhado de histórias, se faz necessário o fazer pedagógico, a Educação Patrimonial é o instrumento a ser utilizado na perspectiva do cidadão ou visitante da urbe conhecer os traços urbanos e incorporar a identidade ou, melhor dizendo, se sentir pertencente a cidade. O sentimento de pertença, de identificação com uma praça ou um monumento, é o melhor instrumento de preservação. 
         A ideia deste texto é trazer ao diálogo as questões referentes as políticas de preservação do Patrimônio Cultural. A ausências das politicas ou as politicas existentes, este é o mote a ser enfrentado por historiadores, urbanistas, técnicos dos órgãos de preservação, IPHAN, Fundação José Augusto, Funcart (Secretaria Municipal de Cultura) e Semurb , e, claro a sociedade civil, partícipe, deste processo de construção de programas de Estado sobre a Preservação do Patrimônio Cultural. 
      O Pac das Cidades Históricas, as diversas legislações - nos três níveis da federação, União, Estado e Município -, são mecanismos de preservação importantes, mas, temos de pensar ações para além destes instrumentos. Finalizo aqui este, Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação. Continuarei a fazer deste tema um labutar diário enquanto historiador. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Zuzu Angel: a dor de uma mãe


Zuzu Angel: a dor de uma mãe 
Luciano Capistrano 
Historiador e Professor 



Do Galeão 


Do Galeão 
Voos 
Gritos 
Dores 
Um algoz 
Burnier 
Estado cadafalso de legalidade 
Angel 
Vira 
Desaparecido político. 
(Luciano Capistrano) 



           Zuleika Angel Jones, estilista, uma das personalidades mais importante da história da moda brasileira. Zuzu Angel, simplesmente, como era conhecida. Mãe de Stuart Edgar Angel Jones, torturado e morto pelos órgãos de repressão. Uma mãe, como tantas outras, que perderam seus filhos. Zuzu Angel, passou sua vida, depois do triste outubro de 1971, denunciando os algozes do seu filho. Em 1976, em um suspeito acidente de carro, morreu. Morreu sem saber poder enterrar o corpo do seu filho, até hoje inserido na lista dos desaparecidos. 
          As mães são seres iluminados, ao trazer as lembranças doloridas, deste caso, neste mês de maio, mês das mães, faço para provocar uma reflexão sobre os desmandos dos governos autoritários. 
           Segundo o ex preso político Alex Polari de Alvarenga, Stuart Angel, foi torturado e morto na Base Aérea do Galão: 

Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica). Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre ás acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem números de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos. (Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007, p. 161) 

         Sobre o desaparecimento do corpo de Stuart Angel existem diversas versões, desde de ter sido enterrado em um cemitério do Rio de Janeiro, numa vala comum, como indigente sem identificação, até o de ter sido levado em um helicóptero e jogado seu corpo em alto mar. 

Quem é essa mulher 
Que canta sempre esse estribilho? 

Só queria embalar meu filho 
Que mora na escuridão do mar. 

Quem é essa mulher 
Que canta esse lamento? 

Só queria agasalhar meu anjo 
E deixar seu corpo descansar. 
( Angélica – Letra Chico Buarque) 

             Zuzu Angel, como diz a letra de Chico Buarque, não conseguiu “embalar seu filho” para deixar “seu corpo descansar”. Mãe, enquanto viveu, fez do seu ofício de estilista uma barricada de resistência. Em 1971 promove um desfile no consulado brasileiro em Nova York com peças denunciando o desaparecimento do seu filho. Suas criações passaram a estampar canhões, pássaros engaiolados, meninos e anjos amordaçados. 

    O mundo da moda e a Ditadura escancarada na passarela - Zuzu Angel denuncia as torturas no  Brasil.
               O Brasil Tri Campeão do Mundo, na Copa do México de 1970 no ano seguinte  era estampado nas passarelas do mundo como o país das torturas e violações dos direitos humanos. Essa realidade brasileira de prisões ilegais era uma prática crescente nos anos iniciais do governo do General Presidente Emílio Garrastazu Médici. Conforme o Brasil Nunca Mais: 

[... ] Médici dá início, em 30 de outubro de 1969, ao governo que representará o período mais absoluto de repressão, violência e supressão das liberdades civis de nossa história republicana. Desenvolveu-se um aparato de “órgãos de segurança”, com características de poder autônomo, que levará aos cárceres políticos milhares de cidadãos, transformando a tortura e o assassinato numa rotina. (BRASIL, Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 63) 

          Ao encerrar este curto artigo lembro que no Brasil, mesmo no período do governos dos generais presidentes a tortura não fazia parte da Constituição, a Lei de Segurança Nacional não tinha em seus artigos o Pau-de-arara ou o Choque elétrico, como instrumentos legais de investigação, então, esses crimes cometidos pelos agentes de segurança do Estado Brasileiro são atos cometidos, pelo submundo da ditadura militar/civil, contra o próprio Estado. 
Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático. 







segunda-feira, 29 de abril de 2019

O caso Riocentro: Ultradireita, uma nódoa verde oliva



O caso Riocentro: Ultradireita, uma nódoa verde oliva 

Luciano Capistrano 

Professor e Historiador 



“Meu coração tá batendo 

Como quem diz não tem jeito 

Zabumba, bumba esquisito 

Batendo dentro do peito...” (Coração Bobo – Alceu Valença) 


           Na Noite do dia 30 de abril de 1981, no Riocentro, Rio de Janeiro, mais de 20.000 pessoas cantavam o “Coração Bobo”, música de Alceu Valença, o músico pernambucano e outros artistas participavam da celebração do dia 1º de maio, em homenagem ao dia do trabalho. Naquele 30 de abril, diversas pichações foram estampadas ao longo das vias de acesso ao Riocentro, eram referencias a grupos de esquerda. Enquanto Alceu cantava seu Coração Bobo, no palco, uma explosão acontecia no estacionamento. A noite do 30 de abril de 1981, era marcada por uma ação terrorista organizada por grupos militares contrários ao processo de reabertura política iniciado no governo do Presidente General Ernesto Geisel e continuado durante o mandato do seu sucessor General Presidente João Figueiredo. 
          Ao escrevo sobre este tema com a intenção de fazer o diálogo referente a um momento muito delicado de nossa história. Hoje alguns insistem em negar a história, em negar o caráter ditatorial do regime instalado no Brasil em 1964, através de um golpe militar/civil. O caso do Riocentro é bem simbólico, pois apresenta de forma clara, o embate que existia dentro das próprias forças que fizeram 1964, os golpistas de 1964 não eram unanimes quanto a democratização em curso da sociedade brasileira. 
         O projeto de retomada da legalidade democrática era um terreno pantanoso, os sucessivos governos dos Generais Presidentes, pós 1964, teceram uma rede paralela. Um Brasil paralelo, com tentáculos bem articulados no Estado oficial, prendiam, torturavam e assassinavam às margens do aparato legal. Na verdade, uma rede obscura agia sob o manto dos órgãos de segurança. Era o aparelho repressivo montado na esteira da Lei de Segurança Nacional. 
        De nomes como o CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), CIE (Centro de Informações do Exército), CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica), DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) ... uma estrutura estatal criada para “manter a ordem”, na prática organismos de polícia política, com atuação no submundo da ilegalidade. Deste aparato submergiu figuras do tipo Fleury Paranhos, Brilhante Ustra, Claudio Guerra e tantos outros membros dos órgãos de segurança e “militantes” da ultradireita empoderada nos corredores dos horrores das “delegacias e quartéis” transformados em “Casas de Torturas”. 
         O atentado do Riocentro foi resultado dessa máquina engendrada pelos fascistas contrários a abertura política em curso no governo do general Presidente João Figueiredo. Um dos casos mais graves ocorridos no período da ditadura militar/civil foi a ação fracassada, daquele 30 de abril de 1981: 

O atentado mais sério foi o do Riocentro, em 30 de abril de 1081. Mais de 20 mil pessoas assistiam a um show de música, como parte das comemorações do Dia do Trabalho, quando um a bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A explosão matou um sargento e feriu gravemente um capitão, os dois ocupantes do Puma, cuja placa era fria. Ligados ao DOI- CODI do Primeiro Exército, do Rio, estavam à paisana. Alceu Valença cantava, quando um percebeu que, de repente, a plateia olhou para trás, atraída pelo ruído da explosão. O show continuou. Mas tarde, outro artefato foi detonado na casa de força, mas a luz não chegou a ser cortada. Uma terceira bomba foi encontrada intacta. Não fosse o acidente no carro, o atentado poderia ter provocado uma tragédia de grandes proporções. ( PILAGALLO, Oscar. O Brasil em sobressalto. São Paulo: Publifolha, 2002, p. 150) 


           Neste momento de narrativas saudosistas dos militares e civis golpistas de 1964, faz necessário trazer para o diálogo estes fatos de nossa história. E me parece importante lembrar, como já me referi acima, do “clima” de disputa no âmbito dos setores militares, de um lado uma ala defensora do lema: Abertura, “lenta, gradual e segura”, e, do outro lado a linha dura, responsável entre outras ações, pelo assassinato do jornalista Wladimir Herzog, torturado nas dependências do I Exército, em São Paulo, morto, os militares deram uma versão de “suicídio”, farsa desmascarada. 



Riocentro: fez-se noite escura! 

(Para não esquecer) 



Um 30 de abril, em uma noite escura 

Um puma, em uma noite escura 

Um ato insano, em uma noite escura 

Um explosivo, em uma noite escura. 



O verde-oliva desbotou-se de cores: terroristas! 



Um sargento, em uma noite escura 

Um capitão, em uma noite escura 

Um terrorista, em uma noite escura 

Um dia do trabalhador, em uma noite escura. 



Em 1981, uma explosão, um corpo dilacerado… 

Sangra-se o país do Ame-o ou Deixe-o 

Riocentro: fez-se noite escura! 

(Luciano Capistrano) 


           O desmonte do aparato repressivo de manutenção do regime ditatorial tecido em 1964, não foi um processo fácil, o próprio ideólogo da abertura lenta, gradual e segura, o general Golbery depois das investigações militares que inocentarem os membros do EXÉRCITO do atentado terrorista do Riocentro, pediu demissão do governo. Assim diz o historiador Carlos Fico: 

O sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o capitão Wilson Dias Machado, que estava ao seu lado, sobreviveu. Entretanto as investigações não os identificaram como autores, gerando grave crise no governo porque o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil da Presidência e ideólogo do regime e um dos mentores da abertura, demitiu-se frustrado com o resultado. Ainda assim, o atentado do Riocentro tornou-se um marco porque, desde então, cessaram as atividades terroristas da linha dura. (FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Contexto, 2015, p. 100) 

           O caso Riocentro: Ultradireita uma nódoa verde oliva, deve ser um exemplo da importância de termos instâncias democráticas pautadas na legalidade constitucional para que os extemos não pratiquem ações terroristas como a daquela noite de 30 de abril de 1981. Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Do Museu Nacional à Catedral de Notre-Dame: Uma dor renovada.


Do Museu Nacional à Catedral de Notre-Dame: Uma dor renovada.
Luciano Capistrano
Historiador e Professor

         Eram por volta das 15:30, intervalo das aulas, quando meu amigo Professor Bartolomeu, mostrou a imagem da Catedral de Notre-Dame em chamas, impactante, sem palavras, fiquei por algum tempo a olhar a triste cena das labaredas a consumir oito séculos de história. Eu e o mestre, Bartolomeu, nos lamentando a perda para a humanidade de tão importante Patrimônio Cultural. No mesmo instante nos lembramos do incêndio do Museu Nacional, ocorrido na noite do dia 2 de setembro de 2018. As cinzas consumiram anos de história, naquela noite quente do Rio de Janeiro, agora, na segunda feira, do dia 15 de abril de 2019, as cinzas consomem a Catedral de Notre-Dame.
387 degraus, a cada degrau memórias afetivas, culturais, religiosas. Diversas eram as marcas impressas em cada um indivíduo, feito tatuagem, que viveram a experiência privilegiada de conhecer a Igreja erguida, entre 1166 e 1245, belo templo cristão, de estilo gótico a subir nas alturas dos céus de Paris. Lugar da fé católica, dedicada à Virgem Maria. Lugar de grande importância para o mundo católico.
          Catedral de Notre-Dame, para além do religioso, uma referência cultural para a humanidade. Seu altar, seu piso, suas paredes... testemunharam a coroação de Napoleão Bonaparte, a beatificação de Joana D’Arc e a coroação de Henrique Vi da Inglaterra.  Momentos que fazem parte da história da para além das fronteiras da França.
        O Corcunda de Notre-Dame, escrito por Victor Hugo, “nasceu” nos arrabaldes da Catedral, o cotidiano parisiense, descrito pelo grande escritor, confundia-se com a presença da edificação, de estilo gótico, cenário para o clássico da literatura universal. 

“A catedral já se encontrava deserta e na penumbra. Nas laterais da nave, as lamparinas das capelas começavam a brilhar, com as abóbadas mergulhadas em plena escuridão. Somente a grande rosácea da fachada, com seus mil coloridos banhados ainda por um raio horizontal de sol, reluzia na sombra como um punhado de diamantes, projetando no outro extremo da nave seu espectro deslumbrante.” ( https://sanderlei.com.br/PDF/Victor-Hugo/Victor-Hugo-O-Corcunda-de-Notre-Dame.pdf, p. 292, acessado em 16/04/2019)

            A Catedral de Notre-Dame, é personagem importante na trama tecida por Victor Hugo, inclusive a repercussão de seu livro contribui para, de certo modo, a proteção da Igreja, pois , as “chamas” da Revolução Francesa são contidas quando se lançam sobre a monumental construção gótica .
            As cinzas vistas nos céus de Paris, reacenderam a chama de alerta com relação dos Patrimônios Culturais, ao pensar a Cidade Luz, Paris, passando por uma dor sentida, por todos nós, quando do incêndio no Museu Nacional, na Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, faz necessário uma política rigorosa com relação a preservação destes lugares de memórias.

    Foto: Marcelo Sayão/ El País - Museu Nacional, no triste 2 de setembro de 2018.

    Imagem: AFP - Catedral de Notre-Dame , no triste 15 de abril de 2019.
            A dor sentida no triste 2 de setembro de 2018, reapareceu com as labaredas do dia 15 de março de 2019, finalizo este curto artigo, escrito com os olhos cheios de lágrimas, evocando a sociedade potiguar, visitemos nosso lugares de memórias, façamos esforços no sentido de valorizar estes espaços e lutemos por uma política de preservação. Do Museu Nacional á Catedral de Notre-Dame: Uma dor renovada.

sexta-feira, 1 de março de 2019

O homicídio tem cor


O homicídio tem cor
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

"O réu não possui o estereótipo padrão de bandido, possui pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido". (Juíza Lissandra Reis Ceccon)

            A narrativa de uma democracia racial é muito frágil, quando nos deparamos com o cotidiano da sociedade brasileira, a realidade é outra, ainda guardamos “estereótipos” construídos ao longo do tempo, frutos de uma sociedade erguida nas dores da “diáspora negra”. Aqui, no Brasil, usando as palavras de Darcy Ribeiro, o português, colonizador, “criou uma engrenagem de moer gente”. Sentença certeira, o autor do “Povo Brasileiro”, foi muito preciso nessa sua afirmação, e, hoje constatamos o grande desafio, ainda posto, diante da sociedade brasileira, de varrer de uma vez por todas, as práticas preconceituosas, tão, infelizmente, arraigada em nosso país.
            A juíza Lissandra Reis, ao proferir em sua sentença a crença em “estereótipos” de criminosos, juntou-se, infelizmente, a tantas outras vozes que teimam em manter a narrativa da exclusão racial, lembrando as velhas teorias do médico/psiquiatra Cesare Lombroso, e das teorias eugênicas, tão nefastas para a sociedade humana, pois, propõem a superioridade das “raças”. Este tipo de visão, sabemos onde nos levou, aos “crematórios” nazistas.
            A sociedade brasileira tem de dizer em alto e bom tom: racistas, não passarão!


            Não, não é natural um gerente de um banco, a Caixa Econômica, diante de um homem, negro, dizer: “... não negociaria com esse tipo de gente...". O empresário Crispim Terral, foi humilhado, pelo único fato de se dirigir ao gerente e reclamar da demora, foram 4 horas esperando ser atendido, para completar o drama vivido, a sua filha de 15 anos o acompanhava neste infortúnio, inclusive presenciou o momento em que os policiais, acionados pelo gerente do banco imobilizaram  Crispim com um ‘mata-leão”.
            Ao olhar o Mapa da Violência, os dados nos inquieta, em 2016, por exemplo, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros. Uma constatação provocadora, quando relacionada aos casos de preconceitos, como os descritos acima, meu caro leitor/leitora, não me resta duvidas: os números de homicídios têm cor. Ser jovem e negro é corre um risco de ser assassinado igual ao cidadão de El Salvador, um dos países mais violentos do mundo, onde a taxa de homicídio alcança 60 mortos por 100.000 habitantes.
            A poucos dias as redes sociais e suas uteis ou inúteis polemicas, foi “sacudida” com a presença de Maju Coutinho, na bancada do Jornal Nacional, de um lado defensores do pioneirismo, mulher negra em papel de destaque na televisão, e do outro lado, críticas algumas abertas outras veladas, contrarias ao pioneirismo deste momento. Este episódio apenas reforça a necessidade de termos mais mulheres e homens negros, desempenhando papel relevante, possibilitando uma visibilidade, antes negada, onde ao negro era apenas permitido o lugar de serviçal, as novelas são exemplos dessa “barreira” imposta aos de cor negra, basta uma pesquisa rápida na história da televisão brasileira para confirma essa situação.
            Enfim, façamos de nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Fotografia e história: algumas reflexões

Fotografia e história: algumas reflexões
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

“De todos os meios de expressão, a fotografia é o 
único que fixa para sempre o instante preciso e transi-
tório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente
desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo
capaz de fazê-las voltar. Não podemos revelar ou copiar a memória.”
(Henri Cartier-Bresson)

Em minhas idas e vindas aos sebos, me deparei no Sebo Vermelho com o livro de João Maurício Fernandes Miranda - arquiteto urbanista, professor da UFRN, ocupou diversos cargos públicos, em órgãos de planejamento urbano, na cidade do Natal/RN -, “Evolução urbana de Natal em 400 anos: 1599-1999”. Eu recém nomeado historiador da Secretaria do meio ambiente de Natal, “garimpava” tudo que se relacionava a história urbana, pulsava em mim, o desejo de saber dessa história da cidade, minha nova função exigia este conhecimento.
Leitura agradável, com informações importantes para compreensão dos caminhos trilhados pela cidade de Câmara Cascudo. A partir dessa obra de João Maurício, me chamou a atenção outro livro de sua autoria, “380 anos de história fotográfica da cidade de Natal: 1599/1979”, passei, então, a catar nos diversos sebos da cidade o tão desejado livro. 
Em uma tarde despretensiosa, a bela surpresa, ao acessar o site da Estante Virtual, especializado em livros usados, me deparo com um exemplar, rapidamente realizo a compra virtual, enfim, tenho o livro em minhas mãos.
Bom faço este relato com a finalidade de convidar meu caro leitor, minha cara leitora, para, neste curto artigo, fazer algumas reflexões sobre fotografia e história, motivado, por duas das minhas paixões: a fotografia e a história. Em seu livro, João Maurício, faz uma viagem sobre a Natal a partir da fotografia, nesses “380 anos  de história fotográfica”, as fotos são postas no livro, fazendo um contraponto entre “o ontem e o hoje”, são imagens da Natal do início do século XX e final da década de 1970, uma verdadeira narrativa visual da cidade. A fotografia faz parte do cotidiano presente:

O impacto cultural da fotografia sobre os últimos cento e cinquenta anos, tanto em si mesma, quanto na forma da imagem visual em movimento a que ela também deu origem, tem sido imenso, alterando completamente o ambiente visual e os meios de troca de informação de uma grande parte da população do globo. (GASKELL, Ivan. História da imagem In BURKE, Peter (Org.). A escrita da história, São Paulo, 1992, p. 241)

No fazer histórico o uso da fotografia tem ao longo do tempo ganhado espaço na produção historiográfica. A evolução tecnológica e o impulso das mídias digitais possibilitaram o acesso a diversas fontes de pesquisa com a diversidade dos tipos de documentos, são um ganho dos tempos modernos. Vejamos:

A iconografia fotográfica diz respeito a partes ou ao conjunto da documentação pública ou privada que abrange um largo espectro temático, produzida em lugares e períodos determinados. As fontes que compõem são meios de conhecimento: registros visuais que gravam microaspectos dos cenários, personagens e fatos; daí sua força documental e expressiva, elementos de fixação da memória histórica individual e coletiva. Em função de tais características, constituem documentos decisivos para a reconstituição histórica. (KOSSOY, Boris. Os tempos da fotografia: O efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007, p. 34-35)

As fotografias são narrativas, sejam em “álbuns públicos ou privados, a serem interpretadas por historiadores/pesquisadores, assim, a obra de João Maurício, traz em suas páginas uma narrativa da cidade de Natal através de um rico acervo fotográfico. São imagens de uma cidade “localizada” em determinado tempo, e, podemos aferir a partir deste “380 anos  de história fotográfica”, elementos fazedores da urbe. Como, exemplo, reproduzo, abaixo, algumas fotos pinçadas do livro supra citado.
Rua da Conceição com a Praça Padre João Maria - Foto Bruno Bourgard Acervo IHGRN

Do alto da torre da Igreja Matriz ver se a Rua Santo Antônio  - Década de 1910 Foto Bruno Bourgard Acervo IHGRN

As imagens compõem narrativas silenciosas, estão a espera de intérpretes, daqueles que retiraram delas seus significados. Claro que este caminho não é uma tarefa fácil. Existe um percurso a ser vencido. O olhar do historiador, é o olhar do pesquisador, atento as partes determinantes do documento, e munido desses instrumentos, se faz o caminhar historiográfico. Recorremos, de novo, ao historiador Boris Kossoy, pioneiro nessa temática:

Contudo, a imagem fotográfica é fixa, congelada na sua condição documental. Não raro nos defrontamos com sua condição documental. Não raro nos defrontamos com imagens que a história oficial, a imprensa, ou grupos interessados se encarregaram de atribuir um determinado significado com o propósito de criarem realidades e verdades. Cabe aos historiadores e especialistas no estudo das imagens, a tarefa de desmontagem de construções ideológicas materializadas em testemunhos fotográficos. Decifrar a realidade interior das representações fotográficas, seus significados ocultos, suas tramas, realidades e ficções, as finalidades para as quais foram produzidas é a tarefa fundamental a ser empreendida. (KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica: O efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2012, p. 22-23)

Conjunto Gramoré - acervo DATANORTE

Ao aproximar do fim, chamo a atenção para a importância de vê a fotografia como um documento histórico, neste sentido, temos de termos diante dessa importante fonte histórica a mesma postura assumida defronte de outros tipos de documentos, devemos ao explorar os caminhos inerentes a historiografia manter os cuidados particulares do pesquisador.  Pensar a fotografia, enquanto fonte, requer a compreensão da sua trajetória, pois:

Toda fotografia tem atrás de si uma história. Olhar para uma fotografia do passado e refletir sobre a trajetória por ela percorrida é situá-la em pelo menos três estágios bem definidos que marcaram sua existência. Em primeiro lugar houve uma intenção para que ela existisse; esta pode ter partido do próprio fotógrafo que se viu motivado a registrar determinado tema do real ou de um terceiro que o incumbiu para a tarefa. Em decorrência desta intenção teve lugar o segundo estágio: o ato do registro que deu origem à materialização da fotografia. Finalmente, o terceiro estágio: os caminhos percorridos por esta fotografia, as vicissitudes por que passou, as mãos que a dedicaram, o solhos que a viram, as emoções que despertou, os porta-retratos que a emolduraram, os álbuns que a guardaram, os porões e sótãos que a enterraram, as mãos que a salvaram. Neste caso seu conteúdo se manteve, nele o tempo parou. As expressões ainda são as mesmas. Apenas o artefato, no seu todo, envelheceu. (KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Editora Ática, 1989, p. 29)


Avenida Rio Branco - 1935 - acervo IHGRN

          Fotografia e história: algumas reflexões, antes de um artigo conclusivo, não tem essa pretensão, busca fazer uma reflexão sobre fotografia e história, em um contínuo pensar sobre as possibilidades dos “vestígios”  deixados em “álbuns” para a historiografia. Finalizo, então, com um pecado poético e uma fotografia, que seja um convite à reflexão.

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(Luciano Capistrano)
Pôr do sol - Luciano Capistrano

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