domingo, 30 de junho de 2019

Uma história de dores: enxergo através das memórias


Uma história de dores: enxergo através das memórias 
Luciano Capistrano 
Professor e Historiador 

"Enxergo a vida através da memória". 
(Socorro Paiva Capistrano) 



      Tem dias que me pego com o passado, tempos de infância/adolescência inquietam meus pensamentos. Neste domingo, amanheceu chuvoso, 30 de junho, último dia do mês das quadrilhas, milhos, fogueiras, forró... bem, domingo, chuva, mês junino, não sei se essa mistura de alguma forma atiçou um baú de recordações. E neste caldeirão de sensações e simbolismos, abro a página do Facebook, e, encontro uma frase de Socorro Paiva Capistrano, pessoa querida, já encantada. 

      “Enxergo a vida através da memória” , leio a frase de Socorro Paiva, mãe dos meus queridos primos, Pablo Capistrano e Rosa Morena, em uma postagem do Facebook com uma foto das minha idas ao arquivo, em uma rotina do oficio de historiador. A foto do meu fazer como historiador e a frase, me fizeram olhar a estante, vê os livros. Neste instante, me deparo com, Sem Paisagem: memórias da prisão, livro de Moacyr de Góes, ex- secretario de educação, um dos idealizadores da Campanha de Pé no Chão Também Se Aprende A Ler, ação de educação desenvolvida durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão. Folheio o livro e:

Agora, sentado na janela do comando do QG, eu esperava. Da janela via a Catedral, a Praça André de Albuquerque. Mulheres, carregando suas tristezas, chegavam para as missas. Pensei em minha mãe. Lamentei não ver a Igreja de Santo Antônio porque sempre gostei do galo que guarda o campanário. Sabia que se atravessasse a Praça, da calçada da Igreja do Rosário, veria o Rio Potengi. Lembrei de minha mulher, pois, ali, muitas vezes namoramos. Era um dos nossos recantos preferidos pela beleza do rio e pela discrição do lugar que permitia abraços e beijos. Oito anos de namoro. (GOÉS, Moacyr de. Sem paisagem: memórias da prisão. Natal: Sebo Vermelho, 2004, p.43-44)

    Foto Luciano Capistrano - Pôr do Sol / Rio Potengi

            A dor da saudade descrita pelo professor Moacyr de Goés, preso, impedido de ver o por do sol e o rio Potengi ao lado de sua amada. Na narrativa de suas memórias paisagens de uma cidade, memórias de um tempo de restrição as liberdades democráticas. Os lugares narrados, cheios de sentimentos, por Moacyr são “testemunhas” deum período em que o obscurantismo fez se “Senhor do Poder” nas terras potiguares. Página triste de nossa história. Hoje ao caminhar pela Praça André de Albuquerque não encontramos mais os vestígios das administração do prefeito Djalma Maranhão, não foi apenas as memórias afetivas de Moacyr de Goés que foram confinadas a uma cela fria do Quartel do Exército, as gerações pós abril de 1964, foram ceifadas das Praça de Culturas, foram ceifadas da Galeria de Artes da Praça.

Eis o que esta Galeria de Arte vale para nós, como representação do passado. Bem queria que os novos alunos de hoje também passassem por ela sonhando e cantando. Não se extinguiu, na verdade, o instinto norte-rio-grandense de poesia. E mais uma vez, para confirmar a predestinação histórica, os poetas confluem para esta praça, possuindo agora a sua Academia democrática, tendo agora a oportunidade de expor aos olhos do povo sua inspiração viva. (BARBOSA, Edgar. Imagens do tempo. Natal: Edição Imprensa Universitária, 1966. p. 98)

        As novas gerações de estudantes não conheceram a Galeria de Arte, uma galeria aberta, uma espécie de “corredor das artes”, construída na parte da Praça André de Albuquerque próxima ao hoje Tribuna de Justiça, um lugar escolhido para ser “passagem”, aberto para todas as classes sociais. Comerciários, sapateiros, moradores do Passo da Pátria, transeuntes da Cidade Alta, atravessavam por entre cultura. Hoje um vazio, nada a lembrar a Galeria de Arte.

     Acervo: http://www.dhnet.org.br/djalma/galeria.htm - Galeria de Arte.

      Retorno a Socorro Paiva, "Enxergo a vida através da memória", e, faço este exercício de “enxergar “a cidade através destes memorialistas, cronistas, que nos fazem ver. Ver uma cidade silenciada, por forças obscuras alçadas ao Planalto Central numa quartelada com pés fincados em setores antidemocráticos, setores da sociedade conservadores responsáveis por interromper uma das administrações das mais exitosas que Natal já viu. Djalma Maranhão não desceu as escadarias do Palácio Felipe Camarão por ter cometidos atos ilícitos de corrupção. 
       Desceu de cabeça erguida. Preso, exilado no Uruguai, morreu de saudades de sua cidade de sua gente, mas, morreu com a consciência tranquila de quem fez o melhor por sua cidade. 
       Já chegando ao fim dessas minhas inquietações, olho novamente a estante e meus olhos marejam, lagrimas escorrem pelo rosto. Mãos tremulas, abro o livro, Assim foi Auschwitz: testemunhos (1945-1986):


Fui deportado da Itália, em minha qualidade de judeu, em 20 de fevereiro de 1944 e cheguei à estação de Auschwitz na noite de 26 de fevereiro de 1944 [...] Assim que desci do trem, na plataforma da estação deu-se a primeira seleção; tive a sorte de ser julgado suficientemente jovem e ainda apto para o trabalho, enquanto minha mulher (que estava comigo e da qual fui brusca e violentamente separado) foi enviada nessa mesma noite para a câmara de gás, como soube depois da libertação por algumas de suas companheiras que sobreviveram [...] (LEVI, Primo. Assim foi Auschwitz. São Paulo: Companhia Das Letras, 2015, p. 68-69).

    Fonte: http://fortune.com/2019/05/09/redbubble-holocaust-fashion-imagery-auschwitz/

      Finalizo esse meu percurso, por memórias afetivas ditas em momentos de dores individuais em cenários de um Brasil pós 1964, e, em uma época mais anterior, a década de 1940, tempo da Segunda Guerra Mundial. Nos fragmentos extraídos das memórias de Moacyr de Góes e de Primo Levi, a dor comum de todos nós humanos, a dor das injustiças sofridas, por perseguições nazifascistas. Dores de saudades. 
     Parafraseando Socorro Paiva Capistrano: Uma história de dores: enxergo através das memórias. Façamos das nossas inquietações, sempre um diálogo democrático.









terça-feira, 25 de junho de 2019

Natal: entre poetas, memorialistas... a urbe!


Natal: entre poetas, memorialistas... a urbe!
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

Uma cidade não se abre fácil,
como um guarda-chuva,
a quem sequer não a tem.
Uma cidade é como a luva:

sem o gesto e a medida
exatos de quem a calça,
jamais se entrega a alguém
por mais força que se faça
para tê-la ou possuí-la.

Pode tê-la, mas sem uso.
simples adorno ocultando
a sua alma ao intruso.

Mas possuí-la, através
de um exercício constante
de amor e contemplação,
é ver o quanto de amante
uma cidade esconde em si.

Ao menor gesto, qualquer,
Que venha de quem a ama,
Ela transcende: mulher.

Mulher lânguida que, amada,
mais ama, além, sobre a dor.
E nos devolve em silêncio
O que lhe damos de amor.

Silêncio que pensa no homem
o seu ingênito pasmo,
como a paz que nos oferta
a mulher depois do orgasmo.

Natal não foge à regra
Que a experiência assinala.
Íntima, entre o rio e o mar,
se estende. Convém amá-la.
(Nei Leandro de Castro – Romance da Cidade de Natal)

            A poesia de Nei Leandro de Castro é um convite ao leitor para conhecer a cidade desbravar seus rincões, adentrar em seus mistérios. Nascido na terra de Santana, em uma Caicó de 1940, desde cedo, sua vocação para a escrita aflorou, estudante do Externato São Luís, Atheneu Norte-rio-grandense, Faculdade de Direito de Natal, percorreu sua vida escolar do fundamental ao ensino superior, acompanhado das letras.
Sua escrita é uma grande contribuição para a produção literária do Rio Grande do Norte, com uma vasta obra, da prosa a poesia, entre seus livros, “As Pelejas de Ojuara”, ganhou destaque nacional ao ser adaptado para o cinema em 2007. Como não é objetivo deste artigo, fazer uma análise da literária, me, restrinjo a chamar a atenção do leitor para as possibilidades de utilização da poesia de Nei Leandro de Castro, no livro já citado, para conhecer a cidade de Natal e seus lugares de memórias.
Um circuito histórico lírico na companhia de poetas, memorialistas, personagens narradores da urbe, a apresentarem as ruas e becos, este é o que proponho neste artigo. Guias de turismo, arquitetos, geógrafos, geólogos, historiadores, e, todos os profissionais que de um modo ou de outro, tem a cidade como objeto de estudo e trabalho, tem um acervo aberto na nossa literatura para partir dela embrenhar-se na identidade do natalense.
A cidade é uma página para ser lida, o transeunte, o habitante ou o visitante, ao caminhar pela cidade faz também uma leitura dos seus espaços, ou, dos “eus” que a cidade comporta. O historiador José D’Assunção Barros, faz uma narrativa sobre a cidade como um texto aberto a ser desvendado por seus habitantes. Diz Barros:

[...] A cidade também fala aos seus habitantes e aos seus visitantes através dos nomes próprios que abriga: dos nomes de ruas, de edifícios, de monumentos. O grande texto urbano aloja dentro de si textos menores, feitos de placas de ruas que evocam memórias e imaginários, de cartazes que são nas avenidas para seduzir e informar, de sinais de trânsito que marcam o ritmo da alternância entre a passagem permitida e os interditos aos deslocamentos no espaço. A cidade é um grande texto que tece dentro de si uma miríade de outros textos, inclusive os das pequenas conversas produzidas nos encontros cotidianos. (BARROS, José D’Assunção. Cidade e história. Petrópolis: Editora Vozes, 2012, p. 45)

            Os cronistas, poetas e memorialistas, são porta vozes dessa cidade/texto, assim, aponto neste curto artigo, além do já citado Nei Leandro de Castro, o poeta de Areia Branca, que adotou e foi adotado por Natal, Deífilo Gurgel, pesquisador de primeira linha das manifestações culturais do Rio Grande do Norte, o mestre Deífilo também cantou em versos os encontros e desencontros da cidade de Natal. Em Ribeira Velha de Guerra, poema dedicado ao pesquisador Gutemberg Costa, o poeta faz uma narrativa sentimental sobre o antigo bairro que não mais existe:


Ribeira Velha de Guerra
 A Gutemberg Costa

Na Campina da Ribeira,
o poeta Itajubá
- sentimental, mas viril,
empina nos céus de agosto
(o suor escorre no rosto),
um tremendo “papagaio”,
o maior que já se viu.

Mestre Cascudo passeia
na antiga Rua das Virgens.
Na casa número tal
nasceu um super-herói.
(O super-herói é ele,
vencedor de tanta guerra,
tanta luta cultural).

Hidroplanos alçam vôo
na barra do Potengi.
São aves da Latecoere,
enfrentando as intempéries,
pelas mãos de Exupéry.

Em frente ao “Cova da Onça”,
Perrepistas, Liberais
trocam mais que insultos, tiros.
Morre o povo, corre o povo,
que todos somos mortais.

“Tabuleiro da Baiana”,
“Fumaça” serve cartolas
- banana, queijo e canela –
para a fome dos bacanas.

[...]

Sentam todos na calçada
do “Carneirinho de Ouro”
em velhas mesas da “Antártica”
e, entre sorrisos e abraços,
e muitas “louras” geladas,
vai começar a função.
(Deífilo Gurgel – Ribeira Velha de Guerra)

            Na poesia de Deífilo Gurgel, encontramos uma Ribeira existente apenas nas memórias de quem viveu a Natal do passado, em cada verso o poeta descortina o tempo de outrora, deixando para nós, através dos seus versos, o cotidiano de Natal, seus lugares, sua gente e os fatos ocorridos ao longo do tempo na cidade baixa. Uma narrativa poética fazendo submergir memórias do fazer. São os caminhos percorridos pela urbe.
            Conhecer a cidade implica em fazer escolhas, traçar rotas. Não tem como não pensar a cidade sem enfrentar o labirinto no qual ela é desenhada, continuamente, afinal, não se trata de algo estático, parado no tempo, pelo contrário a urbe urge modificações, algumas de difícil percepção, mas estamos andando em um terreno dunar e um tanto pantanoso. Para não me perder nessa caminhada, faço das pegadas deixadas  por escritores e escritoras, das coisas da cidade, a trilha mais segura a seguir. Como por exemplo, ir no passo de Clementino Câmara e conhecer dos primeiros momentos do terceiro bairro de Natal, Cidade Nova, hoje TIrol e Petrópolis:

O terreno não era uma mata: era um mato de jurubeba, camboim, mangabeira, cajueiro, caboatã, guabiraba, ubaia. Aqui e ali alguns mocambos, distanciados, e entre eles o do negro Paulo, onde havia aos domingos zambê puxado a puíta e fartamente regado a cachaça. Com frequência davam-se conflitos de soldados do Exército, que não primavam naquele tempo, pelo amor à ordem. [...] Só uma ruazinha lá se encontrava – a do Morcego, que depois veria a ser Vai-quem-quer. [...] No local reservado para a futura matriz uma casa de farinha, e a rua João Pessoa era chamada do Sarmento. (CÂMARA, Clementino. Década. Natal: EDFURN, 2018. p. 77).

            Faço deste “Natal: entre poetas, memorialistas... a urbe”, uma provocação para dialogarmos sobre as possibilidades, dos livros, alguns empoeirados nas estantes, em contribuir para a construção de roteiros sobre a cidade. Lembro do Alvissareiro, descrito por Câmara Cascudo, em sua História da Cidade do Natal, que lá do alto da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação testemunhou o crescimento da cidade. Neste artigo ouso, repito como provocação par ao diálogo, o caminho dos versos e memórias, de poetas e memorialista da cidade de Natal. Façamos o diálogo.

    Foto: Luciano Capistrano - Olhar de Câmara Cascudo sobre a cidade.



domingo, 2 de junho de 2019

Inquietações: "o outro lado da questão"; “o outro lado da história ...”.

Inquietações: "o outro lado da questão"; “o outro lado da história ...”.
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

            Costumo finalizar meus escritos com “Façamos de nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático”, este não será diferente. Mas, confesso, algo me incomoda no tema que apresento para nosso diálogo neste curto artigo. A negação da história. Sim, nestes últimos anos, dizem que resultado do pós-modernismo, existe uma onda “revisionista” da história. Antes de me acusarem de fundamentalista, sim apenas os fundamentalistas, não aceitam o caráter falível, como historiador, meu ofício é a ciência histórica, compreendo ser a história passível de revisão. Agora, claro, a partir de pesquisa histórica e não “revisões” fundamentadas em simulacros de documentação histórica analisadas, em simulacros de análises historiográficas. 
         Como exemplo dessa onda negativista, perigosa , recorro a um acontecimento ocorrido no estado de Illinois, EUA, em 1990, conforme A Cronologia da Negação do Holocausto: 

Em 1990: Após Illinois se tornar o primeiro estado norte-americano a obrigar o ensino do Holocausto em escolas públicas, os casais Ingeborg e Safet Sarich fazem um protesto público retirando sua filha de 13 anos da escola. Os Sarich também remeteram 6.000 cartas a autoridades públicas, acadêmicas, jornalistas e sobreviventes do Holocausto, atacando o registro histórico como sendo “rumores e exageros”. (Acessado em 02/06/2019, no sitio: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/holocaust-denial-key-dates

        “Rumores e exageros”, diziam grupos familiares sobre o Holocausto. Críticos da obrigatoriedade do ensino do Holocausto em escolas Públicas norte-americana, defendiam a tese da liberdade, e, transformavam as vítimas em culpados. Infelizmente essas famílias “beberam” nas “fontes” de ódios antissemitas produzidas por grupos de extrema direita, tipos “Ku Klux Klan a skinheads”, desejosos de restaurar o legado nazifascista de Adolf Hitler. Neste caso específico, chamo atenção para os cuidados que temos de ter ao nos posicionarmos com relação a dois temas bem presentes na agenda, o ensino domiciliar e as liberdades individuais. O desafio é garantir o estado democrático sem ter o processo democrático minado por uma extrema direita desvairada. 
       Estes casos de negacionismos do Holocausto se fundamentam, em muitas das vezes, em pretensas pesquisas cientificas. O caráter científico é buscado a todo custo numa operação, digamos pitoresca, das teorias da conspiração. A formula parece simples, pretensos especialistas, apresentam estudos, pareceres, documentos... uma série de fontes, num emaranhado obscuro de teorias que partem do principio de desqualificar a produção cientifica consolidada e aceita pela Comunidade Cientifica, já adianto, não digo isso para reforçar a defesa da Autoridade inconteste do Cientista, não é isso. Repito a ciência requer crítica, a ciência é falível. O problema reside no argumento que foge do campo da ciência e envereda por caminhos sinuosos das conspirações “terraplanistas”. 
         O caso de negação das ações nazistas é muito emblemático e faço essa referência para não nos deixarmos levar pelo “canto encantado” das “redes sociais”, este mundo que se quer paralelo, mas é um espaço, mesmo virtual, a ser regido por questões éticas e leais. A internet não é um mundo sem lei. A internet e o ciberespaço é um lugar de chão batido fértil para a propagação de grupos de ultradireita e suas ações saudosistas dos ideais nazistas. O historiador Dilton Maynard aponta para a ocupação da rede mundial de computadores por grupos revisionistas da direita radical: 

Com a emergência de diferentes portais na World Wide Web, desenhou-se um oceano de informações. Afloraram daí múltiplas memórias e tentativas de reescrita da história. Entre tais projetos de reconstrução historiográfica, está o uso feito da rede mundial de computadores por grupos de extrema-direita. Espaços virtuais destinados a servir como suportes pedagógicos, encontrando um ambiente atraente e de baixo custo, neofascistas de diferentes países construíram sites que tem sido veículos para divulgação de seus ideais, oferta de um diversificado merchandising e para a apresentação de supostas revisões da história. Nelas o navegante pode encontrar verbetes, artigos, vídeos, imagens e participar de fóruns voltados a, por exemplo [...] rever seus conceitos sobre figuras como Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945), transformados em estadistas benevolentes e Martin Luther King (1929-1968), descrito como um “agitador racial”. (MAYNARD, Dilton Cândido Santos. Escritos sobre história e internet. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2011, p. 44-45) 

            Uma onda de empoderamento neofascistas neste oceano de águas turvas e agitadas da rede mundial de computadores, fica bem nítida quando em uma pesquisa rápida encontra-se “páginas e páginas” com o caráter ultra conservador a jogar nos ares o “lixo” da história, que pensávamos já fazer parte do cemitério do passado, enterrado junto com a queda dos regimes nazifascistas liderados por Mussolini e Hitler. As trevas foram abertas. 
           A Historiadora Deborah Lipstadt, desnuda os negacionistas do holocausto, a autora do clássico, A Negação do Holocausto, é enfática: 

Eles afirmam que os nazistas não assassinaram seis milhões de judeus, que a noção de que havia câmaras de gás para matar em massa é um mito, e que qualquer morte de judeus ocorrida sob o domínio nazista foi resultado da guerra e não de uma perseguição sistemática e assassinato em massa organizado pelo Estado. ( Acessado em 02/06/2019, https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-44897985

          Deborah Lipstadt, historiadora norte-americana, enfrentou os que negavam o holocausto, e, procuravam dá um significado cientificista aos argumentos apresentados. Uma situação de risco para as liberdades, pois enaltecer ou no mínimo dizer que é "mimimi" o ocorrido nos campos de concentração nazistas ou chegar ao cumulo dos “terra planista”, de afirmar não ter existido os campos de concentração e nem tão pouco as câmaras de gás, onde foram executados milhares de centenas de judeus. Como nos alertou do perigo Lipstadt. Levemos a sério essas asneiras, pois, narrativa do ódio nasce disfarçada de "burra".
           Finalizo este artigo citando o fundador do Facebook Zuckerberg, mesmo na condição de judeu, mesmo condenando os conteúdos negacionistas do Holocausto,  defende o direito a livre expressão, nas redes sociais: 

Acho isso profundamente ofensivo. Mas, no fim das contas, não acho que nossa plataforma deva excluir (esses usuários), porque creio que existem coisas sobre as quais as pessoas se equivocam. Não acho que estejam intencionalmente interpretando os fatos de forma errada", disse Zuckerberg. (Acessado em,   02/06/2019,  Acessado em 02/06/2019, https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-44897985 ) 

            Das minhas Inquietações: "o outro lado da questão"; “o outro lado da história ...”, das  nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.

domingo, 12 de maio de 2019

Mailde Pinto Galvão, obrigado!


Mailde Pinto Galvão, obrigado!
Luciano Capistrano
Professor e Historiador

1964: aconteceu em abril*
(Para Mailde)

Abril tempos de repensar
Falar é necessário
Democracia liberdades em risco
Tempos de uma legalidade interrompida
Dias sombrios
Golpe, não revolução!
21 anos de obscurantismo
Torturas
Prisões
Desaparecidos políticos!
*Título do livro de Mailde Pinto Galvão
(Luciano Capistrano)

            Conheci Mailde Pinto Galvão, através do seu livro 1964: aconteceu em abril, uma publicação da Livraria Clima, do saudoso livreiro Carlos Lima, faço aqui um pequeno parêntese, para dizer da importância do livreiro da rua dr. Barata, o homem da Livraria Clima, para as letras potiguares. Grande Carlos Lima. Bom retornemos ao texto.
            Mailde Galvão em seu 1964: aconteceu em abril, encontrei um relato pujante sobre os dias que se seguiram a tomada do Poder pelos golpistas, militares e civis associados, desferiram um golpe a frágil democracia brasileira. Em seu relato escancara as ações ocorridas em solo potiguar, tecendo um cenário com diversos personagens e suas atitudes perante a defesa ou o ataque ao regime democrático.
Na dedicatória um silencioso desabafo de quem sofreu as agruras dos perseguidos injustamente por um Estado autoritário:” É igualmente, a oportunidade para lembrar e agradecer os gestos de solidariedade que todos nós, os “subversivos”, recebemos de pessoas que participaram da nossa história.”(PINTO, Mailde Galvão. 1964: Aconteceu em abril. Natal: Clima, 1964)
Mailde Pinto, aproveito a oportunidade para lhe agradecer, in memória, pela coragem e altivez com que enfrentou as tribulações e por ter publicado tão importante contribuição para nossa história. Gratidão.
Não é fácil para quem vivenciou o trauma da prisão, os anos das liberdades proibidas, falar ou escrever sobre este período de nossa história. Como disse Mailde Pinto(1994, p.1):

Este relato de fatos ocorridos em 1964 tem a pretensão de contribuir para o conhecimento da história do golpe militar no Rio Grande do Norte, focalizando, preferencialmente, os acontecimentos que atingiram a Prefeitura Municipal de Natal, nos quais fui envolvida, com alguns companheiros de trabalho do setor de educação e cultura do município. 
Por dificuldades emocionais, muitas vezes tive que interromper esta reconstituição; mas eu vivi, sofri e sobrevivi à perseguição da ditadura. Sinto-me, pois, moralmente comprometida a tirar da escuridão as minhas lembranças reprimidas.

            Mailde Pinto Galvão, participou de um dos grandes projetos de educação já ocorrido na cidade de Natal, na Campanha de Pé No Chão Também Se Aprende A Ler, durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão. Seu crime o de ter trabalhado em uma administração perseguida por:

[...] alfabetizar vinte e cinco mil crianças, na primeira campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, reconhecido pela UNESCO como válida para as regiões subdesenvolvidas do mundo, num país de humilhante maioria de analfabetos, e lutar para dar ao povo acesso às fontes do saber, no plano de democratização da cultura. 
[...] fazer feira de Livros, de construir uma galeria de arte e estimular o teatro do povo. De restaurar e promover a revalorização dos autos folclóricos. De abrir bibliotecas populares que estabeleceram recordes nacionais de empréstimos de livros, numa cidade que não tinha nenhuma biblioteca pública. (GÓES, Moacyr de (org.) Dois Livros de Djalma Maranhão no Exílio. Natal: Prefeitura Municipal do Natal, 1999, p. 262).

            Aconteceu em 1964 uma ruptura da democracia, governos como o de Djalma Maranhão foram interrompidos e seus gestores presos ou exilados, seus programas interrompidos. Neste sentido faço neste artigo ao trazer a memória de Mailde Pinto, um canto de lembranças destes tempos sombrios vividos pela sociedade brasileira.
 Hoje vivemos uma tal onda de revisionismo histórico a fazer nos lembrar dos embates historiográficos na Alemanha dos anos 1980. Vozes como a do historiador Ernst Nolte com sua tese de justificativa do nazismo alemão. Conforme diz a historiadora Ana Lima Kallas, em seu artigo Usos públicos da história: origens do debate e desdobramentos no ensino de história, “Segundo Nolte, diante de tantos massacres em massa no século XX, tais como os realizados pelos Estados Unidos no Vietnã e o Gulag soviético, os alemães ocidentais deveriam ficar em ‘paz consigo mesmos’ e deixar ‘o passado em passar’”(Revista de História Hoje, vol. 6, nº 12, p.132, 2017).
Enfrentar o passado e não deixar passar os traumas vividos nos pós 1964 pela sociedade brasileira é uma função urgente dos historiadores.
Ao abordar esse tema a luz de relatos como o de Mailde Pinto Galvão, faço um convite para embarcarmos na locomotiva do passado e de forma clara compreender os caminhos de nossa história recente. Pois:

De fato, o Golpe Militar de 1964 pode ser acusado de muitas coisas menos de ter sido uma mera quartelada. Havia muito, tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), fundado em 1962 por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe vinha sendo tramado havia tempos ficou registrado nos documentos da operação ‘Brother Sam’, através da qual se prevê, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano ‘doaria’ 110 toneladas de armas e munições ao Exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento, não é surpreendente que a instituição militar apresente um projeto próprio de desenvolvimento para o país – aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, tal projeto consiste em retomar o modelo implantado em fins da década de 1950, aquele definido como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais. (DEL PRIORE, Mary; VENANCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010, p. 275 e 276)

            Mailde Pinto, 1964 aconteceu antes de abril e ainda acontece, quando nos vemos diante de uma onda revisionista a dizer equivocadamente ter sido o golpe Militar/Civil-1964 um movimento ou uma “ditabranda”. Mailde Pinto Galvão obrigado por ter deixado um relato sobre os tempos sombrios ocorridos na Natal da década de 1960.
            Façamos de nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.
           

           




quarta-feira, 8 de maio de 2019

Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação



Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação 
Luciano Capistrano 
Professor e Historiador 


Uma cidade não se abre 
Fácil, como um guarda-chuva, 
A quem sequer não a tem. 
Uma cidade é como a luva: 
Sem o gesto e a medida 
Exatos de quem a calça, 
Jamais se entrega a alguém 
Por mais força que se faça 
Para tê-la ou possuí-la. 
Pode tê-la, mais sem uso, 
Simples adorno ocultando 
A sua alma ao intruso... 
(Romance da Cidade de Natal – Nei Leandro de Castro) 



         A cidade é um lugar de múltiplas identidades, andar por ruas e vielas é viver uma rica experiência do espaço urbano. Em meu ofício de historiador me encaminhei pelos caminhos sinuosos da cidade de Natal em busca de compreendê-la, entender sua expansão ao longo do tempo. A cidade, como diz a poesia de Nei Leandro de Castro “não se abre fácil”. Neste percurso, trilhei as veredas abertas por memorialistas, cronistas, poetas, fotógrafos, urbanistas, historiadores, enfim, por escritos sobre o espaço urbano. 
           O historiador José D’Assunção Barros, nos dá pistas para abrir as veredas da cidade de forma a nos apropriarmos de seus significados. Caminhar pelo espaço urbano é então um exercício do olhar edificações, praças, monumentos, ruas... gentes. A cidade é um texto aberto: 

Uma última implicação da metáfora da cidade como texto ou como discurso é a de que o complexo discurso urbano aloja dentro de si diversos discursos de todas as ordens. A cidade também fala aos seus habitantes e aos seus visitantes através dos nomes próprios que ela abriga: dos nomes de ruas, de edifícios, de monumentos. O grande texto urbano aloja dentro de si textos menores, feitos de placas de ruas que evocam memórias e imaginários, de cartazes que são expostos nas avenidas para seduzir e informar, de sinais de trânsito que marcam ritmo da alternância entre a paisagem permitida e os interditos aos deslocamentos no espaço. A cidade é um grande texto que tece dentro de si uma miríade de outros textos, inclusive os das pequenas conversas produzidas nos encontros cotidianos. (BARROS, José D’Assunção. Cidade e História. Petrópolis: Vozes, 2012, p.45) 

           O Patrimônio Cultural é o percurso mais seguro para desvendar a cidade. Natal com seu acervo a céu aberto nos ensina sobre sua história, descer a ladeira da avenida Câmara Cascudo tem um sentido de sala de aula. São os sinais das intervenções realizadas na década de 1910, a balaustrada, as iluminarias, o bonde elétrico, as novas edificações, dando uma nova ressignificação ao espaço urbano. O relógio a marcar o tempo de quem descia ou subia a ladeira, sobre os olhares dos estudantes do Atheneu e as orações dos membros da Igreja Presbiteriana. 
           O tempo, implacável, segue o sinal da fábrica de tecido, lá no “pé da ladeira”, fronteira dos Xarias e Canguleiros, marcas de um passado guardado nas Actas Diurnas de uma cidade que cresceu para além das Quintas. 
             Neste emaranhado de histórias, se faz necessário o fazer pedagógico, a Educação Patrimonial é o instrumento a ser utilizado na perspectiva do cidadão ou visitante da urbe conhecer os traços urbanos e incorporar a identidade ou, melhor dizendo, se sentir pertencente a cidade. O sentimento de pertença, de identificação com uma praça ou um monumento, é o melhor instrumento de preservação. 
         A ideia deste texto é trazer ao diálogo as questões referentes as políticas de preservação do Patrimônio Cultural. A ausências das politicas ou as politicas existentes, este é o mote a ser enfrentado por historiadores, urbanistas, técnicos dos órgãos de preservação, IPHAN, Fundação José Augusto, Funcart (Secretaria Municipal de Cultura) e Semurb , e, claro a sociedade civil, partícipe, deste processo de construção de programas de Estado sobre a Preservação do Patrimônio Cultural. 
      O Pac das Cidades Históricas, as diversas legislações - nos três níveis da federação, União, Estado e Município -, são mecanismos de preservação importantes, mas, temos de pensar ações para além destes instrumentos. Finalizo aqui este, Patrimônio Cultural de Natal: um convite à preservação. Continuarei a fazer deste tema um labutar diário enquanto historiador. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Zuzu Angel: a dor de uma mãe


Zuzu Angel: a dor de uma mãe 
Luciano Capistrano 
Historiador e Professor 



Do Galeão 


Do Galeão 
Voos 
Gritos 
Dores 
Um algoz 
Burnier 
Estado cadafalso de legalidade 
Angel 
Vira 
Desaparecido político. 
(Luciano Capistrano) 



           Zuleika Angel Jones, estilista, uma das personalidades mais importante da história da moda brasileira. Zuzu Angel, simplesmente, como era conhecida. Mãe de Stuart Edgar Angel Jones, torturado e morto pelos órgãos de repressão. Uma mãe, como tantas outras, que perderam seus filhos. Zuzu Angel, passou sua vida, depois do triste outubro de 1971, denunciando os algozes do seu filho. Em 1976, em um suspeito acidente de carro, morreu. Morreu sem saber poder enterrar o corpo do seu filho, até hoje inserido na lista dos desaparecidos. 
          As mães são seres iluminados, ao trazer as lembranças doloridas, deste caso, neste mês de maio, mês das mães, faço para provocar uma reflexão sobre os desmandos dos governos autoritários. 
           Segundo o ex preso político Alex Polari de Alvarenga, Stuart Angel, foi torturado e morto na Base Aérea do Galão: 

Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica). Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre ás acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem números de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos. (Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007, p. 161) 

         Sobre o desaparecimento do corpo de Stuart Angel existem diversas versões, desde de ter sido enterrado em um cemitério do Rio de Janeiro, numa vala comum, como indigente sem identificação, até o de ter sido levado em um helicóptero e jogado seu corpo em alto mar. 

Quem é essa mulher 
Que canta sempre esse estribilho? 

Só queria embalar meu filho 
Que mora na escuridão do mar. 

Quem é essa mulher 
Que canta esse lamento? 

Só queria agasalhar meu anjo 
E deixar seu corpo descansar. 
( Angélica – Letra Chico Buarque) 

             Zuzu Angel, como diz a letra de Chico Buarque, não conseguiu “embalar seu filho” para deixar “seu corpo descansar”. Mãe, enquanto viveu, fez do seu ofício de estilista uma barricada de resistência. Em 1971 promove um desfile no consulado brasileiro em Nova York com peças denunciando o desaparecimento do seu filho. Suas criações passaram a estampar canhões, pássaros engaiolados, meninos e anjos amordaçados. 

    O mundo da moda e a Ditadura escancarada na passarela - Zuzu Angel denuncia as torturas no  Brasil.
               O Brasil Tri Campeão do Mundo, na Copa do México de 1970 no ano seguinte  era estampado nas passarelas do mundo como o país das torturas e violações dos direitos humanos. Essa realidade brasileira de prisões ilegais era uma prática crescente nos anos iniciais do governo do General Presidente Emílio Garrastazu Médici. Conforme o Brasil Nunca Mais: 

[... ] Médici dá início, em 30 de outubro de 1969, ao governo que representará o período mais absoluto de repressão, violência e supressão das liberdades civis de nossa história republicana. Desenvolveu-se um aparato de “órgãos de segurança”, com características de poder autônomo, que levará aos cárceres políticos milhares de cidadãos, transformando a tortura e o assassinato numa rotina. (BRASIL, Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 63) 

          Ao encerrar este curto artigo lembro que no Brasil, mesmo no período do governos dos generais presidentes a tortura não fazia parte da Constituição, a Lei de Segurança Nacional não tinha em seus artigos o Pau-de-arara ou o Choque elétrico, como instrumentos legais de investigação, então, esses crimes cometidos pelos agentes de segurança do Estado Brasileiro são atos cometidos, pelo submundo da ditadura militar/civil, contra o próprio Estado. 
Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático. 







segunda-feira, 29 de abril de 2019

O caso Riocentro: Ultradireita, uma nódoa verde oliva



O caso Riocentro: Ultradireita, uma nódoa verde oliva 

Luciano Capistrano 

Professor e Historiador 



“Meu coração tá batendo 

Como quem diz não tem jeito 

Zabumba, bumba esquisito 

Batendo dentro do peito...” (Coração Bobo – Alceu Valença) 


           Na Noite do dia 30 de abril de 1981, no Riocentro, Rio de Janeiro, mais de 20.000 pessoas cantavam o “Coração Bobo”, música de Alceu Valença, o músico pernambucano e outros artistas participavam da celebração do dia 1º de maio, em homenagem ao dia do trabalho. Naquele 30 de abril, diversas pichações foram estampadas ao longo das vias de acesso ao Riocentro, eram referencias a grupos de esquerda. Enquanto Alceu cantava seu Coração Bobo, no palco, uma explosão acontecia no estacionamento. A noite do 30 de abril de 1981, era marcada por uma ação terrorista organizada por grupos militares contrários ao processo de reabertura política iniciado no governo do Presidente General Ernesto Geisel e continuado durante o mandato do seu sucessor General Presidente João Figueiredo. 
          Ao escrevo sobre este tema com a intenção de fazer o diálogo referente a um momento muito delicado de nossa história. Hoje alguns insistem em negar a história, em negar o caráter ditatorial do regime instalado no Brasil em 1964, através de um golpe militar/civil. O caso do Riocentro é bem simbólico, pois apresenta de forma clara, o embate que existia dentro das próprias forças que fizeram 1964, os golpistas de 1964 não eram unanimes quanto a democratização em curso da sociedade brasileira. 
         O projeto de retomada da legalidade democrática era um terreno pantanoso, os sucessivos governos dos Generais Presidentes, pós 1964, teceram uma rede paralela. Um Brasil paralelo, com tentáculos bem articulados no Estado oficial, prendiam, torturavam e assassinavam às margens do aparato legal. Na verdade, uma rede obscura agia sob o manto dos órgãos de segurança. Era o aparelho repressivo montado na esteira da Lei de Segurança Nacional. 
        De nomes como o CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), CIE (Centro de Informações do Exército), CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica), DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) ... uma estrutura estatal criada para “manter a ordem”, na prática organismos de polícia política, com atuação no submundo da ilegalidade. Deste aparato submergiu figuras do tipo Fleury Paranhos, Brilhante Ustra, Claudio Guerra e tantos outros membros dos órgãos de segurança e “militantes” da ultradireita empoderada nos corredores dos horrores das “delegacias e quartéis” transformados em “Casas de Torturas”. 
         O atentado do Riocentro foi resultado dessa máquina engendrada pelos fascistas contrários a abertura política em curso no governo do general Presidente João Figueiredo. Um dos casos mais graves ocorridos no período da ditadura militar/civil foi a ação fracassada, daquele 30 de abril de 1981: 

O atentado mais sério foi o do Riocentro, em 30 de abril de 1081. Mais de 20 mil pessoas assistiam a um show de música, como parte das comemorações do Dia do Trabalho, quando um a bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A explosão matou um sargento e feriu gravemente um capitão, os dois ocupantes do Puma, cuja placa era fria. Ligados ao DOI- CODI do Primeiro Exército, do Rio, estavam à paisana. Alceu Valença cantava, quando um percebeu que, de repente, a plateia olhou para trás, atraída pelo ruído da explosão. O show continuou. Mas tarde, outro artefato foi detonado na casa de força, mas a luz não chegou a ser cortada. Uma terceira bomba foi encontrada intacta. Não fosse o acidente no carro, o atentado poderia ter provocado uma tragédia de grandes proporções. ( PILAGALLO, Oscar. O Brasil em sobressalto. São Paulo: Publifolha, 2002, p. 150) 


           Neste momento de narrativas saudosistas dos militares e civis golpistas de 1964, faz necessário trazer para o diálogo estes fatos de nossa história. E me parece importante lembrar, como já me referi acima, do “clima” de disputa no âmbito dos setores militares, de um lado uma ala defensora do lema: Abertura, “lenta, gradual e segura”, e, do outro lado a linha dura, responsável entre outras ações, pelo assassinato do jornalista Wladimir Herzog, torturado nas dependências do I Exército, em São Paulo, morto, os militares deram uma versão de “suicídio”, farsa desmascarada. 



Riocentro: fez-se noite escura! 

(Para não esquecer) 



Um 30 de abril, em uma noite escura 

Um puma, em uma noite escura 

Um ato insano, em uma noite escura 

Um explosivo, em uma noite escura. 



O verde-oliva desbotou-se de cores: terroristas! 



Um sargento, em uma noite escura 

Um capitão, em uma noite escura 

Um terrorista, em uma noite escura 

Um dia do trabalhador, em uma noite escura. 



Em 1981, uma explosão, um corpo dilacerado… 

Sangra-se o país do Ame-o ou Deixe-o 

Riocentro: fez-se noite escura! 

(Luciano Capistrano) 


           O desmonte do aparato repressivo de manutenção do regime ditatorial tecido em 1964, não foi um processo fácil, o próprio ideólogo da abertura lenta, gradual e segura, o general Golbery depois das investigações militares que inocentarem os membros do EXÉRCITO do atentado terrorista do Riocentro, pediu demissão do governo. Assim diz o historiador Carlos Fico: 

O sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o capitão Wilson Dias Machado, que estava ao seu lado, sobreviveu. Entretanto as investigações não os identificaram como autores, gerando grave crise no governo porque o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil da Presidência e ideólogo do regime e um dos mentores da abertura, demitiu-se frustrado com o resultado. Ainda assim, o atentado do Riocentro tornou-se um marco porque, desde então, cessaram as atividades terroristas da linha dura. (FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Contexto, 2015, p. 100) 

           O caso Riocentro: Ultradireita uma nódoa verde oliva, deve ser um exemplo da importância de termos instâncias democráticas pautadas na legalidade constitucional para que os extemos não pratiquem ações terroristas como a daquela noite de 30 de abril de 1981. Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.


A esperança se vestiu de cinza.

  A esperança se vestiu de cinza.               Aqui faço um recorte de algumas leituras que de alguma forma dialogam sobre os efeitos noc...