sábado, 21 de setembro de 2019

Livros de memórias: um doce percurso sobre a urbe.

Livros de memórias: um doce percurso sobre a urbe.
Luciano Capistrano
Professor de História
Mestrando Profhistória / UFRN

      Fiquei sabendo de Décadas, livro de Clementino Câmara, ouvindo umas conversas no Sebo Vermelho. Sim sempre gostei dos “sons” que ecoam nos sebos, muita informação encontra-se nas rodas de bate papo. São os cantões, as cocadas, de antigamente, e, foi então em um desses lugares mágicos que ouvi pela primeira vez o nome de Clementino Câmara. Desde aquele momento passei a “cata” o livro Décadas, curioso em conhecer a trajetória das memórias do Professor de diversas gerações da capital potiguar.
      De idas e vindas, por entre poeiras e ácaros, encontrei o livro. Logo nas primeiras páginas, o autor faz uma deliciosa advertência sobre sua escrita:

Mas este livro não é apenas de uma recordação de nossa vida; ludâmbulo de nova espécie, fizemos este passeio aos tempos que se foram - desde aqueles em que o “boi calemba” e os “congos”, para obter permissão de brincar, dançavam primeiro em frente á chefatura de polícia, na rua da Conceição, bem perto do Palácio do Governo; em que se fazia a fogueira de São João na Rua Grande, hoje Praça André de Albuquerque; em que as “Lapinhas” do Antônio Elias e José Lucas, e os Fandangos de Chico Bilro constituíam nota do dia [...]. (CÂMARA, Clementino. Décadas. Ntal: EDFURN, 2018, p.9)

      Radiante eu estava diante de um livro de memórias com doce percurso sobre uma urbe que não existe mais, uma urbe do passado. Tratava-se de uma Natal que conheceu o fim de um século, o século XIX e um amanhecer de um novo século, o século XX. O interessante nessa trajetória inicial, é o cenário urbano fazer parte integrante da narrativa “autobiográfica”. Confesso me atrai as memórias, gosto de fazer, este passeio, este caminhar pelas ruas da cidade através dos memorialistas.
      Clementino Câmara através de suas memórias afetivas nos apresenta uma Natal do passado, uma cidade memória. A cidade que desce a ladeira, e chega na Ribeira, no Cais da Tavares de Lira, e entra nas terras do sítio pertencente ao “Bom Jesus das Dores”, é uma Natal a ser explorada nas páginas de Décadas. A cada informação de sua vida, um pouco da urbe se apresenta, como pro exemplo no seu encontro com os primeiros evangélicos da cidade: 

Numa terça-feira de maio de 1901, entrei na igreja do Bom Jesus, onde se rezavam os terços do mesmo mês. Depois fui pela atual rua Frei Miguelinho e vi num salão uma reunião de diversas pessoas. Cantava-se. Aproximei-me e fiquei com outros curiosos no “sereno”. Diante do auditório, tendo a iluminar-lhe a loira cabeça um candeeiro a querosene, encontrava-se João Ferreira Nobre com a Bíblia aberta, pregando.(CÂMARA, Clementino. Décadas. Ntal: EDFURN, 2018, p.74)

        Estes dois fragmentos são bem ilustrativos das minhas inquietações dessa “cidade” despida por cronistas/memorialistas. Busco neste universo de memórias, tecer os retalhos das lembranças narradas, na formatação de Natal. Tenho em minha estante um lugar especial para o memorialistas da urbe, são vozes prontas para narrar a cidade. Me delicio neste diálogo, eu e os memorialistas “habitantes de minha biblioteca”, para lembrar o professor Américo de Oliveira. Um desses habitantes é Lair Tinôco e seu “Tempo de Saudade”.

[...] Todas as tardes, o meu avô, Dodô, como eu e minha irmã o chamávamos, pegava na minha mão e me levava para olhar a enchente do potengi. As águas barrentas lambiam os degraus de pedra do pequeno cais e até espraiavam-se pelo calçamento regular da Av. Tavares de Lira [...] Na volta sempre dávamos uma entradinha na Rua Chile. Lá ficava a “Dispensa Natalense”, o melhor armazém de cosmétiveis da nossa cidade naqueles idos. (TINÕCO, Lair. Tempo de Saudade. Natal: Fundação José Augusto, 1992, p. 73-74)

         São os livros de memórias: um doce percurso sobre a urbe, este é o convite deste curto artigo. Deixo para você leitora e leitor este convite, se joguem neste mundo das memórias e pise no chão de uma Natal, cidade memória.





sábado, 14 de setembro de 2019

Olhos da Cidade… uma inquietação em voz alta.

Olhos da Cidade… uma inquietação em voz alta.
Luciano Capistrano
Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando: Profhistória/UFRN

Foto: Luciano Capistrano - Um olhar, uns clicks... uma cidade se descortina!

           Sempre que olho essa paisagem, da foto acima, fico encantado com a beleza de nossa orla. É preciso pensar o desenvolvimento da urbe, agora sigamos os conselhos do mestre Câmara Cascudo em sua crônica "Olhos da Cidade", em um determinado trecho diz o Historiador da Cidade do Natal: "... Quem irá lembrar-se do direito de alguém ter diante dos olhos uma paisagem ridente ou um muro banal? [...] Diga-se que o Miradouro não é um direito oferecido ao turista, ao viajante, ao estrangeiro, mas ao homem da cidade, ao morador, ao habitante, o elemento diário e comum. Possa esse direito afirmar-se ao lado do patrimônio natural da cultura, como um facto visível e próprio da cidade moderna." ( Diário de Natal, 5 de janeiro de 1947) 
             O Historiador Câmara Cascudo não está sozinho nessa preocupação com, a cidade e sua paisagem natural, alguns anos antes o Educador Henrique Castriciano, faz um alerta sobre o crescimento urbanos da cidade, a ocupação dos espaços e o direito de “OLHAR”, que deve ser de todos os cidadão independente das condições econômicas e sociais das pessoas. Neste sentido se refere a descida da avenida Câmara Cascudo, a antiga Junqueira Aires o fundador da Escola Doméstica: 

A paysagem que serve de moldura à cidade é, no seu conjunto de uma grande belleza melancolica. Perto da barra, vê-se a fortaleza dos Reis Magos, com suas muralhas históricas e o seu perfil saudosamente vetusto; mais proximo do porto, à esquerda, dunas cobertas de hervas entanguidas; o Morcego, hoje povoado de graciosas vivendas e toucado de vegetação nos bons tempos da mocidade de Lourival; o morro de Areia Preta; pequenas choças de pescadores; as casas que se confundem à medida que nos aproximamamos do caés [...] Mas é da terra que se descortinam belissimos fragmentos de natureza nortista; por exemplo, o panorama admiravel que se vê da egreja do Rosario. D’ahi as luminosas manhãs de verão, contempl-se o rio, muito azul, apenas levemente ondeiado, deslisando como atravez de um sonho mystico, entre a moldura dos mangues immoveis. (A Republica, 05/07/1907)

              Claro que a urbe cresceu para além das Quintas, subiu e desceu ladeiras, construiu novos lugares de morada e comércio, ergue-se ao longo do tempo uma urbe, ordenada e desordenada. São os “embates” dos fazedores da cidade. Sempre que caminho com grupos de estudantes, por ruas e becos de nossa cidade, costumo dizer que a cidade é feita em camadas, e cada camada representa um determinado momento. Nem sempre são momentos pacíficos, quase sempre são resultados de confrontos de projetos de cidade. A urbe não é o lugar da neutralidade, são os diversos os projetos da “cidade que queremos”, costumo também citar a luta que resultou na Via Costeira e no Parque das Dunas. Um confronto que rendeu bons frutos, assim penso.
            Bem retorno a Cascudo e Castriciano, uma crônica de 1947, uma outra crônica de 1907, nas duas algo em comum o olhar dos dois intelectuais sobre o “progresso” a desenhar uma nova cidade. Uma urbe surge sinuosa, cheia de dúvidas em um tempo das incertezas modernizadoras. 
            Os olhos da cidade requer uma reflexão sobre o direito à cidade. Um projeto de cidade pautado em qual caminho: “...uma paisagem ridente ou um muro banal?...” Eis o dilema que vem de longe, a cada geração as questões se renovam. Seja hoje, quando a instalação de uma faixa de pedestre, na avenida Salgado Filho, causa um acirrado debate, seja, nos anos de 1910, quando a legislação municipal busca normatizar o serviço de “Balaeiro” determinando o lugar deste profissional nas ruas da cidade.
             O Historiador da Cidade de Natal, Luís da Câmara Cascudo, nomeado pelo Prefeito Sylvio Pedroza, em sua obra “História da Cidade do Natal”, publicada sob encomenda do Executivo Municipal e publicada logo depois da Segunda Guerra Mundial, feita ainda sobre os impactos da guerra em nossa cidade, principalmente com a instalação em nosso solo de uma base aérea norte americana, assim se refere a especulação imobiliária que avançava no bairro do Alecrim: 

[...] O que chamamos, com suficiência e pedantismo, problemas, são apenas soluções sabidas e retardadas pela falta de finanças ou vontades positivas., Os problemas surgirão, vertiginosos e horrendos, quando o Alecrim deixar de ser uma esperança para bairro residencial e enriquecer intermediários e donos de lotes. Será um capítulo sinistro registrar o desaparecimento útil da terra para uso financeiro de uma classe melancolicamente míope além das fronteiras dos escritórios. (CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: EDUFRN, 2010, p.31-32).

            A cidade que queremos é o mote dos diálogos e debates dos quais temos de nos fazer presentes, pensar a urbe, como foi objeto de preocupações de Henrique Castriciano e Câmara Cascudo. Façamos o debate. Este curto artigo, “Olhos da Cidade… uma inquietação em voz alta”, é apenas uma conclamação ao diálogo fraterno e sempre pautado nos trilhos da democracia!

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Setembro Amarelo para além do calendário: uma inquietação em voz alta.

Setembro Amarelo para além do calendário: uma inquietação em voz alta. 
Luciano Capistrano 
Professor de História / Escola Estadual Myriam Coeli 
Mestrando do Profhistória / UFRN 


          Durante o ano letivo de 2018 a equipe pedagógica da Escola Estadual Myriam Coeli, apresentou um projeto de intervenção na escola sobre o tema da “automutilação”, a partir de algumas situações ocorridas entre os alunos foi constatado a relevância da temática. Ao final do primeiro semestre, daquele ano letivo, apresentei nos três turnos, uma intervenção cênica, denominada: Felicidade? Se trata de uma espécie de monólogo no qual abordo em cena a questão da depressão e a automutilação. 
       A ideia é inquietar o público a partir dessa questão da felicidade tão angustiante entre nós. Ao fazer a apresentação percebi ser importante mergulhar neste universo da depressão, tantas vezes silenciada ou simplesmente ignorada por parte da família, amigos, profissionais da educação e até da saúde, enfim, um problema que atinge uma parcela considerável de nossos adolescentes. 
        Desde então, venho, sempre que possível realizando “aulas – espetáculos” em escolas de Natal, como uma maneira de trazer para a Comunidade Escolar, essa questão da depressão juvenil como um problema a ser enfrentado por todos, família, escola, amigos e toda a comunidade. Tem sido uma experiência bem gratificante, daí, usar este espaço para partilhar um pouco das minhas inquietações sobre a temática do suicídio. 
       O Setembro Amarelo não pode ser apenas uma data no calendário, tem de significar uma reflexão de toda a sociedade sobre políticas públicas de prevenção do suicídio, é neste sentido que faço essa escrita. O suicídio é um problema de saúde pública e como tal deve ser enfrentado. 


DEPRESSÃO 

Às vezes 
É uma dor 
Silenciosa 
Sem ser dor 
Chega 
Invisível 
Aconchega-se 
No corpo, na alma 
Traiçoeira 
Abraça o coração 
E a mente 
Que não mente 
Exprime-se em um mar 
De vazios 
De um querer viver 
Impertinente 
Simplesmente feliz! 
(Luciano Capistrano) 


         A depressão é uma das portas de entrada no labirinto escuro das dores da “alma”, aquelas que chegam devagar e quando nos damos conta já estamos abraçados pelo Minotauro. O suicídio tem como uma das suas principais causas a depressão. Vejamos um pouco sobre os caminhos sinuosos do suicídio.
      Um dado estarrecedor: A taxa de suicídio a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda segundo a OMS, o Brasil segue na contra-mão das outras nações. A taxa mundial de suicídio caiu 9,8%, estes dados fazem parte do levantamento realizado nos anos de 2010 e 2016. Enquanto ocorreu um recuo nos casos de suicídio a nível mundial, aqui, foi identificado um aumento.
         É preciso levar para as escolas e comunidades, essa temática, o silêncio tem de ser rompido. Neste sentido a família, os profissionais do ensino, tem de ficarem atentos a alguns sinais. Frases como: “Vou desaparecer”; “Vou deixar vocês em paz”; Eu queria poder dormir e nunca mais acordar”; “ É inútil tentar fazer algo para mudar, eu sou quero me matar”...são sinais de alertas que não podem ser desprezados, faz necessário um olhar mais próximo do “outro”.
           Claro que estes comportamentos verbalizados não devem ser considerados isoladamente mas no entanto não pode achar que é simples chantagens emocionais ou “frescuras” de adolescentes.
           O isolamento associado a pensamentos suicidas é um grito de socorro!
          E quando se pede ajuda a postura de quem estar do lado é a do respeito. É preciso respeitar a dores do outro, levar a sério o sofrimento dito por alguém, este é o princípio do ato de ajudar, do início da prevenção ao suicídio.

Eu respeito a sua DOR

A dor… machuca
A dor… abre feridas
Invisíveis aos outros…

Eu respeito a sua DOR

A dor… caminha em abismos
A dor… provoca pensamentos suicidas!
Transforma indivíduo em homicida… de si mesmo!

A dor…
Eu RESPEITO a sua DOR
Apenas… não deixe sua DOR ditar o ponto final
Faça da sua DOR, uma vírgula, em sua VIDA!!
(Luciano Capistrano)

          Respeitar a dores, eis o início da conversa. Finalizo deixando o número e o site o CVV, mas antes lembre-se, se alguém lhe pedir ajuda:
          Encontre um momento e um lugar calma para ouvir;
          Incentive a pessoa a procurar um profissional habilitado;
         Fique em contato com a pessoa, acompanhe o andamento do seu estado.
         E se não tiver o que dizer, simplesmente abrace.
       Façamos do Setembro Amarelo para além do calendário: uma inquietação em voz alta. 
Centro de Valorização da Vida - CVV: www.cvv.org.br ou ligue 188.

    Foto: Junior Palhares - Cena da palestra espetáculo FELICIDADE?

domingo, 8 de setembro de 2019

Minhas Inquietações em voz alta: Os sebos, a Segunda Guerra Mundial e Natal.


Minhas Inquietações em voz alta: 
Os sebos, a Segunda Guerra Mundial e Natal. 

Luciano Capistrano 
Professor de História 
Mestrando – Profhistória/UFRN 


          Já faz um longo tempo que tenho a mania de andar pelos sebos da cidade, uma semana sem visitar os sebos é uma semana meio que perdida. Essa boa mania herdei do meu pai, Benjamin Capistrano Filho. Papai um leitor voraz, um amante dos livros sem nenhum pudor, me ensinou a seguir os caminhos dos ácaros em estantes empoeiradas. Neste universo dos livros usados fui ao encontro de vozes que dizem da humanidade e da desumanidade. Faço essa introdução para conclamar o leitor a se deixar cair no fosso das belas profundezas, belas e inquietantes, de saberes prontos a explodir em nós as mais fantásticas das experiências: a viagem por entre parágrafos! 
           Vozes inquietantes povoam os sebos. 
          Nessas minhas andanças, Balalaika, Sebo Vermelho, Cata-Livros, Sebo Rio Branco... enfim, fui de grão em grão, ou, de livro em livro, formando minha biblioteca, pequena, mas muito amada. Sou grato a papai e aos sebistas por possibilitar essa minha aventura neste universo encantado. Espaço democrático e de um aprendizado único, muitas vezes fico em silêncio a ouvir os frequentadores, e, de orelhas abertas escuto das coisas corriqueiras do cotidiano até as lições sobre os grandes nomes da literatura. Momentos únicos. 
         Mas me movo a escrever, me atrevo, sim a escrita não é fácil, sempre saí meio enviesada, meio provocativa, agora, sempre fui como uma onda do bem querer. Sim, o desejo é partilhar minhas inquietações em voz alta e, então, encontro no ofício de escrever essa possibilidade de expor o que penso, o que me causa inquietação. Sigamos. 
        Tenho uma prateleira dedicada a Natal e a Segunda Guerra, um tema que muito me interessa. Um dos maiores eventos que Natal já sediou, a construção e o funcionamento da Base Aérea Norte-americana. Entre os livros, comprados nos sebos, destaco aqui três: “Os americanos em Natal”, “Natal, USAM”, de Lenine Pinto e o livro de Cleantho Homem de Siqueira, “Guerreiros Potiguares”, faço uma referência a essas obras para externar minha angústia, explico adiante. 
       Sempre me inquietou o fato de Natal, a Cidade Trampolim da Vitória, como ficou conhecida durante a Segunda Guerra Mundial não ter um roteiro cultural específico sobre os tempos da guerra e o solo Potiguar com suas marcas desse período. Nos perdemos em algum momento com o turismo de sol e mar e esquecemos da participação da capital norte-rio-grandense no cenário da guerra e da aviação mundial. Existem esperança com a construção, espero finita, do Memorial da Aviação, na Antiga Rampa, uma obra que se arrasta há alguns anos. 
       Costumo, sempre, realizar “Circuitos Históricos”, por ruas e becos e a cada esquina me deparo com vestígios desse grande acontecimento que foi a instalação de uma base americana, basta olhar a cidade de Parnamirim para testemunhar o tamanho da importância desse momento para o crescimento da urbe e, inclusive, entender o desmembramento da região suburbana, hoje uma das maiores cidade do Rio Grande do Norte. 
        Trago essa questão por compreender ser necessário assumirmos de vez nosso Patrimônio Cultural e isso passa necessariamente por uma mudança de políticas públicas. Sinais já se ver ao longe, quando erguem um espaço dedicado a essa história, quando instituições ligadas ao empresariado desenvolve projetos na perspectiva de elaborar roteiros turísticos com a temática da Segunda Guerra Mundial e aviação. É preciso avançar. Nestes últimos anos a produção historiográfica tem aberto novas veredas sobre Natal e a Segunda Guerra Mundial, são novos olhares sobre o tema, o que nos renova a esperança perdida. 
       Finalizo este artigo, com uma foto do monumento em homenagem ao Mestre Luiz da Câmara Cascudo, o alvissareiro da urbe. Disse Cascudo: “Errariam menos os homens se lessem mais a história”.

    Foto: Luciano Capistrano - Câmara Cascudo, o Alvissareiro da urbe.
               

domingo, 25 de agosto de 2019

A cidade e seus caminhos de memórias: um convite feito poesia

A cidade e seus caminhos de memórias: um convite feito poesia 
Luciano Capistrano 
Professor de História – Escola Estadual Myriam Coeli 
Mestrando – Profhistória /UFRN 

       Gosto de caminhar por ruas e becos de Natal, fico encantado ao dialogar sobre as questões relacionadas ao Patrimônio Cultural. Sempre que posso realizo “caminhadas históricas”, nestes momentos faço das minhas inquietações um convite, para os participantes destas “andanças”, compreenderem a ocupação do solo natalense e a formação deste lugar com todas as suas idas e vindas, da construção do Forte dos Reis Magos, passando pelos trilhos entre tabuas da antiga ponte de ferro, ao som dos hidroaviões, e, as sirenes do blecaute da cidade que foi Trampolim da Vitória, enfim, o convite é para mergulhar nos riacho das águas, nem sempre claras, da história da urbe de Câmara Cascudo. 
            Um convite feito poesia: 


Natal 
de peixe boi à fortaleza 
não existe mistério 
tudo todo mundo sabe 
neste pequeno espaço 
deste perímetro urbano 
não há segredo no rosto da cidade 


todo dia a Estrela Dalva lumia 
no peito desta gente multicor 
um velho sentimento índio 
que não seja traidor 
tudo todo mundo sabe 
sob a lua ou sob o sol desta cidade 
um velho sentimento índio 
resistindo pela eternidade 
(João da Rua – O Canto do Colonizado Contra o Entregador) 


      A poesia é o ponto inicial de nossas caminhadas, são os poetas e os cronistas, ao lado de memorialistas, fotógrafos, os retalhos sobre o qual os historiadores como as magnificas costureiras, vão ponto a ponto, retalho a retalho, costurando a evolução urbana da urbe. A Praça André de Albuquerque com sua Coluna aos Mártires da Revolução de 1817, Padre Miguelinho e André de Albuquerque, no entorno, a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, o Memorial Câmara Cascudo, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Pinacoteca do Estado, a Praça Sete de Setembro, e, as ausências com seus significados, como por exemplo, a Galeria de Artes, construída durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão e derrubada nas administrações advindas depois do golpe militar civil de 1964. 
    Praça André de Albuquerque - Foto Luciano Capistrano

            Este texto, curto, feito em um domingo de agosto, tem apenas o objetivo de fazer um convite para conhecermos nossa história urbana, a cidade cresceu nos rastros das aeronaves norte-americanas. Natal avançou para além das Quintas e é essa cidade que se descortina por ruas e becos, onde mulheres e homens desceram e subiram a ladeira do cemitério do Alecrim, passaram pelo relógio da Praça Gentil Ferreira e seguiram, expandiram o olhar sobre o Rio Potengi e ocuparam a região de Igapó, criando novos lugares de morada, até a construção dos diversos conjuntos habitacionais dando uma feitura que oscila entre uma ocupação ordena e desordenada. 
        Finalizo, o texto, mas deixo o recado: a cidade e seus caminhos de memórias: um convite feito poesia. 



Procuro 
- nem sei se existe – 
um luminoso lugar. 
Não quero esta margem esquerda e triste. 
Quero as luzes 
do outro lado do rio. 


Escuro, 
até onde aviste 
o ansioso olhar. 
Não quero esta margem direita e triste. 
Quero as sombras 
do outro lado do rio. 
(Paulo de Tarso Correia de Melo – Margens: Igapó – Cais Tavares de Lyra) 

    Caminhos pela história - Foto Luciano Capistrano

terça-feira, 30 de julho de 2019

A Constituição de 1988 e duas fotografias

A Constituição de 1988 e duas fotografias. 
Luciano Capistrano 
Professor de História 
– Escola Estadual Myriam Coeli 
- Mestrando do PROFHISTÓRIA / UFRN 


Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: 

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; 
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; 
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; 
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; 
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; 
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; 
VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; 
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; 
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; 
[...] 


          Início este artigo com a evocação a Constituição Cidadã, como a denominou Ulisses Guimarães, de 1988. Utilizo nessa jornada o Artigo 5 e alguns de seus incisos. Faço essa escolha para evidenciar a importância de termos uma Carta Magna com as garantias individuais definidas em seus artigos. Uma constituição proclamada depois de 21 anos de governos autoritários, governos esses que pautaram suas ações sob o manto autoritário do famigerado AI – 5 e outros instrumentos criados nos obscuros corredores da ditadura civil/militar. 
            Ao escrever essas linhas, me vem a memória a casa de minha avó Aline, moradora do Conjunto Habitacional Candelária, sua casa era, e ainda é com minha tia Rosa, o ponto de encontro da família. Nos almoços de domingo, a situação sociopolítica do país fazia parte do cardápio, bons momentos de educação política em família. A Constituição de 1988 e a casa de Vovó Aline, tem em comum a liberdade de expressão, o amor por uma sociedade democrática. A cozinha lugar do aconchego, do café quentinho e das conversas muitas vezes acaloradas mais sempre fundadas em uma base de respeito as pluralidades de ideias. Importante lição de vovó, o respeito as diferentes opções políticas. 
            Antes da Constituição, o movimento das Diretas Já, foi o cenário da grande “explosão” das vozes amordaçadas. 
             A Campanha das Diretas Já, os embates políticos mobilizando corações e mentes, um país de cores, de alegres canções renascia nas ruas e praças, a democracia voltava a dar o “ar de sua graça” em todos os quadrantes do Brasil. Depois de mais de 20 anos iniciou o processo de desmonte do arcabouço jurídico autoritário e o submundo dos “ustras” e “fleurys”, esquadrões da morte a serviço da ultra direita, responsáveis entre outros os atentados do Rio Centro. O Brasil caminhava e cantava... 

“...Já podaram seus momentos 

Desviaram seu destino 

Seu sorriso de menino 

Quantas vezes se escondeu 

Mas renova-se a esperança 

Nova aurora a cada dia 

E há que se cuidar do broto 

Pra que a vida nos dê 

Flor, flor e fruto...” (Coração de Estudante – Milton Nascimento) 

             Milton Nascimento traduz em versos o sentimento da sociedade brasileira, Coração de Estudante ganha status de hino das ruas, do centro a periferia o tom era o das lutas pela volta à normalidade democrática interrompida com o golpe militar/civil de 1964. A luta em favor da aprovação da Emenda Constitucional “Dante de Oliveira”, a Emenda Constitucional que restabelecia a eleição direta para presidente foi derrotada no Congresso. Um balde de água fria foi jogada nos anseios da maioria dos brasileiros. Era último suspiro do regime militar. 
                Os tempos das eleições indiretas estavam com os dias contados. 
              Derrotados no Congresso os Partidos de oposição, ao governo, sintonizados com o clamor que vinham das ruas, se rearticularam, agora para enfrentar o governo autoritário, nos “muros” do Colégio Eleitoral. Paulo Maluf, candidato dos militares, daí derrotado, a cisão da base de apoio ao governo, liderada por José Sarney, abre o caminho para a eleição de Tancredo Neves. Ganha o centro moderado. 
         Faço um recuo no tempo, acredito necessário para tecer uma rede de entrelaço, entre a abertura política coroada com a Constituição de 1988 e o General Presidente Ernesto Geisel, o homem da caserna responsável em abrir as portas do país para o reestabelecimento da democracia. Esteve aqui em Natal e banhou-se na praia dos Artistas. Abaixo a foto e o depoimento do fotografo Orlando Brito: 

Às seis da manhã, fui acordado por um dos “donos” do apartamento assustado com o que estava vendo: o general, vestindo de short, caminhando na praia. Inexplicavelmente, nenhum deles teve a iniciativa de retratar o momento tão raro e simbólico. Não tive dúvida. Coloquei uma teleobjetiva de 300 milímetros na minha inseparável Nikon e rodei dois rolos de filmes, sem sair de onde estava, no cantinho do quarto, junto à janela. (Orlando Brito, era reporte fotográfico do O Globo, responsável em fazer a cobertura Presidencial – acessado em http://orlandobrito.com.br/wordpress/?p=543) 


   O Presidente General Ernesto Geisel de calção de banho caminha tranquilamente na Praia dos             Artistas. Foto: Orlando Brito 

           Ernesto Geisel foi o Presidente que deu início ao período de transição da face mais dura da ditadura militar, definida pelo general-presidente como lenta, gradual e segura. Em seu governo enfrentou a ala dura dos militares, a direita explosiva não satisfeita com o projeto de retorno a vida democrática, desencadeou uma série de onda repressiva com prisões, torturas, assassinatos, ações orquestradas a margem do Estado Oficial, era um verdadeiro estado paralelo agindo no submundo do regime constituído. Um caso bem ilustrativo dessas ações criminosas realizadas por uma direita desvairada e fascista, foi o caso do jornalista Vladimir Herzog: 

Em outubro de 1975, no curso de uma onda repressiva, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi intimado a comparecer ao DOI-Codi, por suspeita de ter ligações com o PCB. Herzog apresentou-se ao DOI-Codi e dali não saiu vivo. Sua morte foi apresentada como suicídio por enforcamento, uma forma grosseira de encobrir a realidade: tortura seguida de morte. (FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2018, p. 273) 



Na foto a farsa montada para esconder o assassinato de Vladimir Herzog - Foto: Silvado Leung Vieira, 

               O General Presidente Ernesto Geisel apesar de ter um posicionamento duro contra a morte do jornalista Vladimir Herzog, criticando duramente o comandante do II Exército, recebeu três meses depois um recado da direita explosiva. O operário Manoel Filho foi torturado e morto nas mesmas condições do jornalista. Geisel, demite o seu ministro do Exército Sylvio Frota, um militar abertamente contrário a abertura política que estava em curso. Ao demiti Frota, o Presidente deu um recado duro a extrema direita: a democracia era um caminho sem volta. 
              Chego ao fim deste artigo, com uma provocação ao leitor, para fazer um exercício de análise, destas duas fotos, a do presidente na Praia dos Artista e a da farsa montada pelos agentes da repressão política. Nas duas fotos o Brasil e suas facetas de um dos períodos mais dramáticos de nossa história republicana. A Constituição de 1988 e duas fotografias, seja, então, um motivo para um diálogo necessário sobre a importância de sermos vigilantes aos direitos expressos na Constituição Brasileira. 
            Nestes tempos em que o Presidente Jair Bolsonaro tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra e faz ironias com o assassinato de Fernando Santa Cruz, pai do Presidente da OAB Nacional, Felipe Santa Cruz, cabe trazer ao debate a postura do General Presidente Ernesto Geisel que se posicionou contra a direita explosiva da qual, é o que parece, o Presidente do Brasil tem saudades. 
        Encerro com as palavras do Deputado Ulisses Guimarães quando da Proclamação da Constituição de 1988: “A sociedade foi Rubens Paiva e não os facínoras que o mataram”.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Fez Noite escura na Vila Mauricio de minha infância



Luciano Capistrano
Professor e Historiador

            Festas juninas, fogueiras, balões, bandeirinhas e um baú de memórias a dizer de uma cidade que ficou no passado. A Natal avançou para além das Quintas e as cinzas das fogueiras de outrora, os sons dos fogos, traques, chumbinho, quase não se vê, A modernidade da urbe reservou para o antigo e empoeirado álbum as recordações dos festejos juninos.
           As brincadeiras em volta da fogueira, as comidas a base de milho, eram tudo motivo para a criançada e adultos abraçarem a noite de céu estrelado, a espera da lua ou do sol. Quadrilhas improvisadas e as ensaiadas, com o marcador ao centro, e o trio a tocar, sanfona, triangulo e zabumba, dando o ritmo do forró deixando os casais com o suor pingando, escorrendo pelo rosto.
Oxente, seu menino, sua menina, este texto segui uma pagada saudosista, me vejo como a escrever em uma Remington, e a ouvir nas ondas do rádio Elino Julião e seu Forró da Coréia:
Barco perdido, bem carregado
Eu tinha chegado em Natal
Muito mal eu sabia
Onde eram as Rocas
Caí na fofoca legal

Do Arial eu fui à pista
Limpei a pista na Vedéia
Saí tomando uns capilés
Quando eu dei fé
Tava na coréia

Só tem véia
Só tem véia
No Forró da Coréia


   Foto: Luciano Capistrano
    
           É neste embalo que trago à memória meus dias de criança, calças curtas, correndo, na Vila Mauricio. Meu mundo encantado, lugar das alegres fantasias, ao doce sabor das pinhas encontradas no quintal de casa, meu refúgio. Menino, da vila, me alegrava os dias de chuva, quando, senhor dos mares, via naufragar na correnteza de águas turvas, que invadiam a vila, e, muitas vezes minha casa e dos vizinhos, os barquinhos de papéis.

Infantis Navegantes


Navegadores dos tempos de outrora
Em barquinhos de papéis
Dos dias de chuvas
Córregos
Enxurradas
Límpidas, puras , crianças a brincar
Nas ruas, por entre bicas e gotas,
A  molhar
De felicidades inocentes
No infinito mundo
Da Vila Maurício, guardada
No baú das alegres brincadeiras
De crianças
Infantis navegantes.
(Luciano Capistrano)

            Nestes tempos confusos, em que a humanidade, caminha em direção ao fundo do abismo da individualidade, relembrar a infância chega a ser uma dose de ânimos para acreditar em um mundo mais solidário, mais alegre, como alegre foram meus dias na Vila Mauricio. Apesar das noites sombrias.
           Lá na vila, descobri também a dor do outro. Duas imagens não saem das minhas lembranças. Uma de um menino, não recordo o nome, sendo carregado nos braços, já sem vida, depois de ter se acidentado na linha férrea quando brincava com seu carrinho de rolimã, e , a outra imagem que me impactou, foi quando em uma certa manhã, entrei na mercearia de seu Albano e vi no chão uma senhora a comer restos de macarrão, me pareceu uma mistura de macarrão com “graxa” de galinha, derramada no chão.
           Essas imagens seguem meu viver.
           O mundo da Vila Maurício, na avenida 12, bairro das Quintas, tem também a marca das noites, que eu e meus irmãos, acompanhados com minha mãe Ceci, dormíamos, juntinhos, nas noites frias em que papai, Benjamin, viajava para Recife, onde respondia um processo na justiça militar, por suas ideias nos obscuros anos do pós abril de 1964. Tempos de perseguição as ideias, quando o autoritarismo verde oliva, unido a setores da sociedade brasileira, interromperam o governo do Presidente João Goulart, e, instauraram um governo de caráter ditatorial.
         Ecoa nos ouvidos das minhas lembranças, sons dos medos de minha mãe, de uma possível prisão de papai. A cada viagem a Recife, a cada intimação, um descompasso no coração. Naqueles tempos mamãe já sabia das diversas histórias de torturas e desaparecimentos de presos políticos. Em 09 de abril de 1964, papai foi enquadrado no Ato Institucional Nº 1, sendo afastado do serviço público, passou junto com mamãe e minha irmã mais velha, Rejane, momentos de aflição e privações. Fez Noite escura na Vila Mauricio de minha infância!
         O som de Elino Julião, as fogueiras e os chumbinhos, já fazem parte de um pôr do sol a anunciar que a noite não é para sempre e apesar das noites obscuras, o sol das liberdades democráticas, sempre vem.
         Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.
    Foto: Luciano Capistrano
    



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