segunda-feira, 14 de setembro de 2020

 Natal perdeu ou ganhou a Segunda Guerra Mundial?

Luciano Capistrano

Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli

Mestrando: Profhistória/UFRN

 

 

            Como professor de história, sempre me questionei sobre Natal e a Segunda Mundial. Como era a cidade? Quais os impactos causados nos arrabaldes da cidade provinciana? Uma urbe transformada em Trampolim da Vitória, cenário da aviação mundial. Qual cidade surgiu depois do encontro dos Presidentes Roosevelt e Vargas na Rampa? Sobre essas consequências dos tempos de guerra para a urbe o historiador da província, Câmara Cascudo nos deixa umas pistas em sua História da Cidade do Natal:

 [...] Alecrim, com suas avenidas retangulares, sua extensão em claridade, sua possibilidade de desdobração, aparece como um milagre de previsão dos velhos e acusados administradores antigos. O crime, cruel e tenebroso crime da displicência administrativa, é sujar todo esse cenário luminoso entregando a terra da gente morar a quem quer apenas vender. (CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: EDUFRN, 2010, p. 31)

             Ao observar a cidade de Natal suas romarias para além das Quintas, seus recantos nascidos às margens dos sons das aeronaves norte americanas a cortarem os céus de Ponta Negra a Redinha, constato que perdemos a guerra. Sim, Natal perdeu a guerra! Aquela cidade pacata, com cheiro e sons de província, impactada com a mobilização militar nunca vista em solo potiguar. Militares, jornalistas, empresários, gente do universo de Hollywood... gente de outras paisagens do Brasil... todos, homens e mulheres, de algum modo atraídos para a terra Potiguar, vindos e trazendo nas bagagens além de costumes, diversos, dinheiro e novas demandas. A província corria os trilhos de um progresso relâmpago de contingente populacional de aproximadamente 35 mil - no início da década de 1930 -, saltou para quase 100 mil habitantes no final da década de 1940. A Natal vivida por Cleantho Homem de Siqueira, descrita em seu livro, Guerreiros Potiguares, não era mesma pós a guerra:

À primeira vista, Natal apresentava-se com nítidas características de cidadezinha provinciana de vida modesta e pacata. Tinha pracinha com indispensável coreto em frente à matriz da santa padroeira, no caso, Nossa Senhora da Apresentação, venerada em novembro, com festa que dura nove dias, sendo encerrada com a tradicional procissão dos fiéis presidida pelo bispo diocesano Dom Marcolino Esmeraldo Dantas, muito respeitado e querido no seio do seu rebanho. A vida na cidade corria sossegada sem os atropelos da cidade grande. Durante o dia, todos se preocupavam com seus fazeres cotidianos. À noite, pegando a brisa suave do alísio, punham-se cadeiras nas calçadas para uma boa conversa até a hora do sono reparador. O cinema era uma opção alternativa para os amantes da arte cênica, enquanto os aficionados dos desportos se dividiam entre as tardes de futebol, praticado no campo da Liga, atual Juvenal Lamartine e animadas manhãs de regatas e competições de natação no Rio Potengi [...] (SIQUEIRA, Cleantho Homem de. Guerreiros Potiguares: O Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial. Natal: EDUFRN, 2007, p. 101).

             “Berlim, caiu, viva!”, “Berlim, caiu, viva!”, “Berlim, caiu, viva!”...

            Este grito a ecoar nas ruas da cidade, em esquinas, casarões e casebres anuncia o fim da guerra, vitória das nações democráticas contra o nazifascismo, motivo de alegria e festa em todos os cantos de Natal. A rendição da Alemanha representou a volta, para usar um termo do tempo presente, “ao novo normal” do mundo. Mas, os gritos de “Berlim, caiu, viva!”, não tem o mesmo significado para todos os moradores da cidade das dunas, banhada pelo atlântico e cortada pelo rio Potengi. Para muitos, o rio das Quintas, o rio Doce, o riacho do Baldo, a ladeira do cemitério, continuaria a ser lugar de idas e vindas, com feixes de lenhas na cabeça ou trouxas de roupas, depois de um dia de serviço. A vida era indiferente a queda de Berlim. Que Berlim era esse? Natal perdeu ou ganhou a Segunda Guerra Mundial?

            Se é verdade que para parte da população as noticias do fim do conflito foi algo indiferente, para todos os efeitos do fim do conflito mundial não tardou a ser sentido. A elite, política e econômica, natalense não preparou a cidade para o fim da guerra e a desmobilização de milhares de militares norte-americanos. A Base Norte Americana, construída em solo potiguar, responsável pelo envio de tropas e suprimentos dos EUA, principalmente para os militares/combatentes no norte da África, foi entregue as autoridades brasileiras, a mobilização dos militares desativada. Natal Trampolim da Vitória tinha agora novas demandas herdadas do período das noites de bleck-out.

            A narrativa de modernização do espaço urbano como resultado dos esforços de guerra e o crescimento econômico é uma questão a ser questionada, nem todos os habitantes da cidade alcançaram os “louros” dos tempos do Trampolim da Vitória. A historiadora Flávia de Sá Pedreira, nos apresenta o depoimento do Senhor Francisco de França Filho:

 “Eu lembro que quando cheguei em Parnamirim, com meu pai e minha mãe, eu tinha quatro anos de idade, 1940, já havia um ano antes a guerra começada, em 1939. E lá se deparamos com uma verdadeira floresta de cajueiros... cajueiro de tabuleiro... e foram chegando várias famílias e tal e não se tinha do que viver... Começamos a viver sob o lio dos americanos. Mas era uma riqueza o lio dos americanos, naquela época. Eu não sei se eles davam porque sentia falta de alimentação pra a pobreza... porque era tonéis grandes de banha de porco... e os porcos eram criados numa pocilga, lá em Pirangi, certo?” (PEDREIRA, Flávia de Sá. Chiclete eu misturo com banana: Carnaval e cotidiano de guerra em Natal 1920-1945. Natal: EDUFRN, 2005, p. 109)

             Gente como a família do Senhor Francisco, contribuíram para a Natal do período da guerra, muitos ergueram as paredes da base área norte americana, homens e mulheres em busca da sobrevivência, trabalho e moradia, aqui chegaram e construíram a urbe nos tempos de guerra. E o que ficou? Volto as minhas inquietações iniciais. E os investimentos realizados neste esforço militar? Qual a herança deixada em solo potiguar? A valorização do solo? Empregos ou desempregos?

            O Rio Grande do Norte palco importante durante a Segunda Guerra Mundial não foi inserida nos projetos de industrialização do governo Vargas. A região sudeste foi a contemplada com um processo de industrialização, cabendo ao Nordeste o papel, no máximo, de produtor de matéria prima.

            Natal viveu um crescimento econômico entre cortado com grave crise socioeconômica, motivo de uma ocupação desordenada da cidade com efeitos ainda sentidos na cidade do tempo presente. A Professora Giovana Paiva de Oliveira é bem clara sobre a situação da urbe diante dos impactos da guerra:

 A partir de 1942, a vida em Natal, para além das novidades e festividades, foi marcada pela carestia e inflação, pelo colapso do sistema de transporte e abastecimento de água, pela crise de abastecimento de gêneros alimentícios e racionamento de combustíveis, pela falta de habitação para atender à demanda instalada e pela especulação imobiliária. (OLIVEIRA, Giovana Paiva de. Natal em guerra: as transformações da cidade na Segunda Guerra Mundial. Natal: EDUFRN, 2014, p. 136)

             Os impactos da Segunda Guerra Mundial necessitam de novos olhares, existem eixos importantes para se pensar este grande evento ocorrido na cidade, transformada em Trampolim da Vitória. Hoje ao pisarmos o chão da Rua Chile, Rua Dr.  Barata, da Rampa e a cidade de Parnamirim encontraremos certamente vestígios dessa cidade trampolim. As minhas inquietações se referem ao que ficou à margem das mobilizações de recursos injetados na economia local, se de um lado ocorreu um progresso vertiginoso, por outro lado, o ônus das demandas sociais não foi contemplado neste processo de “desenvolvimento”.

            A indústria do turismo cultural, segmento econômico, que poderia ser uma alavanca de geração de empregos e rendas, ao longo das diversas administrações do pós guerra não recebeu os cuidados necessários. A cidade conhecida em todo o mundo da aviação, e, a qual sediou a maior base norte-americana fora do solo dos EUA ainda engatinha na promoção de um roteiro turístico sobre a participação de Natal no contexto da Segunda Guerra mundial.

            Nestes tempos de eleições municipais, deixo minha inquietação: Natal perdeu ou ganhou a Segunda Guerra Mundial?


      Foto feita a partir da balaustrada da avenida Getúlio Vargas.


 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Hoje sou GRATIDÃO

 Hoje sou GRATIDÃO!

 

 

"...

Se um dia eu pudesse ver

Meu passado inteiro

E fizesse parar de chover

Nos primeiros erros ah

..."

Era uma terça, o mês setembro do ano de 1968. Naquele dia 3 nasci, inciava minha trajetória neste plano terreno... Minhas lembranças chegam em flashes... chegam feitos ondas!

São vulcões de emoções, nestes 52 anos, ufa ultrapassei a margem do rio rio de minha aldeia... sigo navegando, as vezes em águas turvas, as vezes em águas límpidas...

"...

Vou chorar sem medo

Vou lembrar do tempo

De onde eu via o mundo azul

..."

A dor me acompanha nessa jornada, os medos... lembranças me fazem humano. Do amanhecer no Capim, terra do meu avô Júlio e minha avó Paulina, dos banhos no Bastião ao primeiro porre, a primeira paixão numa noite de chuva... beijos, abraços...lembranças são como o vento, brisas ou furacões...

"...

E ainda se vier noite traiçoeira

Se a cruz pesada for

"...

De tudo, entre encontro e desencontros... noite escura caiu sobre mim, era um domingo, 5 de novembro de 1995... quando te vi, tu já estava no banco de trás do carro, sangrava, eu não sabia, mas naquele momento tu meu irmão já estava sem vida... dor, é dolorido... como eu gostaria que tu estivesse aqui, nestes meus 52 anos, nestes meus renascimentos, sim, renascemos, renasci meu JOÃO RICARDO, parte de mim morreu contigo naquela noite escura...

"...

Quando estou com você

Sinto meu mundo acabar

Perco o chão sob os meus pés

Me falta o ar pra respirar

E só de pensar em te perder por um segundo

Eu sei que isso é o fim do mundo

..."

Há, há o mundo, foi generoso... quando me vi no abismo das incerteza, me apareceu a nega, a mãe dos meus Joãos,...

Era uma manhã de sol intenso, carros, buzinas, sinal fechado... cruzamento da avenida Rio Branco com a rua João Pessoa, nosso encontro, meu reencontro a felicidade e o início de um novo capítulo em minha vida... Hoje sou GRATIDÃO!

'...

Como esta noite findará

E o Sol então rebrilhará

Estou pensando em você

Onde estará o meu amor?

..."

(Luciano Capistrano, o avô de Flor de Liz - aos 3 de setembro do ano de 2020)



quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Profissão: HISTORIADOR/A

 

Profissão: HISTORIADOR/A

Luciano Capistrano

Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli

Mestrando: Profhistória/UFRN

 

            O dia 19 de agosto é o dia do Historiador/a, instituído em 2009, uma homenagem ao nascimento do Pernambucano Joaquim Nabuco, um abolicionista. Viveu nos tempos dos canaviais e usou de sua formação intelectual humanista para se opor a escravização negra. Este 19 de agosto é o dia para celebrar o Profissional responsável para lembrar os “esquecidos”, como a firmou Peter Buker: "A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer".

            Gosto de dizer que o desafio maior posto para o profissional do campo da história é enfrentar a legião dos negacionistas dos fatos históricos. Este é o desafio. Uma vigilância diária para aquelas teorias “conspiratórias” que negam a existência dos campos de “concentração” nazista; Negam os “Gulag” Soviéticos, dos tempos do stalinismo; Dizem “ditadurabranda” sobre os crimes cometidos pela ditadura militar/civil no Brasil pós 1964; Chegam a negar a “engrenagem” de moer gente, criada pelos portugueses durante o Brasil colonial, período da escravidão negra... enfim, cabe aos historiadores / historiadoras lembrar dos acontecimentos silenciados em narrativas negacionaistas.

            Nessa função é preciso termos alguns cuidados, o pântano que pisa o profissional da história é um campo minado. Neste sentido vale o alerta do Historiador Eric Hobsbawm: [...] eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, do físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas de bombas, como os seminários nos quais o Ira aprendeu transformar fertilizante químico em explosivos [...] temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da história em particular. (HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 17/18.

            É a partir deste pressuposto que se pauta o oficio do historiador/a, numa postura profissional com o compromisso social, claro não se deve pensar num ser distante do mundo, o novelo da história não é desenrolado por um ser extraterrestre, são seres humanos, neste sentido o perigo, digamos de contágios existem, mas devem serem fundamentados em evidencias documentais, as fontes são instrumentos imprescindíveis para lastrear de forma firme a narrativa histórica, dirimindo o máximo os jogos ideológicos simulacros de pesquisas históricas.

            Mas enfim, qual o papel deve desempenhar este profissional de história em sua comunidade? Qual deve ser as ações do Historiador/a no tempo presente? Fico com a resposta do Historiador Israelense Yuval Noah Harari: [...] Como historiador, não posso dar às pessoas alimento ou roupas - mas posso tentar oferecer alguma clareza, ajudando assim a equilibrar o jogo global. Se isso capacitar ao menos mais um punhado de pessoas a participar do debate sobre o futuro de nossa espécie, terei realizado minha tarefa [...] ( HARARI, Yuval Noah. 21 LIÇÕES PARA O SÉCULO 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 11.)

    O Tempo - Foto: Luciano Capistrano

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Historiador é PROFISSÃO: 12 de agosto de 2020, UM GRANDE DIA!

 

Historiador é PROFISSÃO: 12 de agosto de 2020, UM GRANDE DIA!

Luciano Capistrano

Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli

Mestrando: Profhistória/UFRN

 

No mundo de Clio

Entre poeiras do tempo

O olhar do presente

Se fez Historiador!

 

            Nesta quarta-feira, 12 de agosto, o Congresso Nacional derrubou o veto do Presidente Jair Bolsonaro ao Projeto de Lei 368/2009, que regulamenta a profissão de historiador. O Projeto original é do Senador Paulo Paim (PT/RS). Uma luta de muitos anos, desde a década de 1960 a discursão sobre o reconhecimento do profissional da história se arrastava entre idas e vindas no Congresso Nacional. Em 27 de abril deste ano, o Presidente Bolsonaro vetou integralmente o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, desde então os diversos setores do campo da história mobilizados através da ANPUH (Associação Nacional de História) ergueram suas vozes e escritas para a derrubada do veto pelos congressistas, o que aconteceu na tarde desse 12 de agosto.

            Faz necessário celebrar este dia, UM GRANDE DIA, não apenas para a ciência histórica e quem dedicou e dedica horas de estudos, desde a graduação em faculdades até os diversos cursos de formação continua ou nas pós graduações. Reconhecer o Profissional da História é reconhecer o conhecimento como instrumento necessário para a atuação a nível profissional nos diversos campos de saberes das atividades humanas. Não se concebe um médico sem ter uma formação na área da ciência médica, não se concebe um historiador sem ser concebido na área da ciência histórica.

            Um alerta importante, no corpo da Lei não se proíbe a pesquisa memorialística ou equivalente, mas se reconhece a importância deste profissional da história em pareceres sobre fatos históricos, assim, o estado brasileiro reconhece a formação acadêmica no campo da história como pré-requisito para o profissional da história.

            A regulamentação da Profissão de Historiador, é para os negacionistas uma pedra no caminho. Um caso clássico de negacionismo histórico é a negação do holocausto. Negaram o genocídio judeu, as câmaras de gás, os campos de concentração nazista. São os simulacros de revisionistas históricos acobertados pelo manto obscuro das teorias conspiratórias, tipo as que dizem, a “terra é plana” ou “o homem nunca foi a lua”, este é o fundamento de quem nega a ciência histórica.

            Em seu artigo 4º a Lei determina o campo de atuação do profissional da história:

Art. 4º São atribuições dos Historiadores:

 

I – magistério da disciplina de História nos estabelecimentos de ensino

fundamental, médio e superior.

II – organização de informações para publicações, exposições e eventos em

empresas, museus, editoras, produtoras de vídeo e de CD-ROM, ou emissoras de Televisão, sobre temas de História;

III – planejamento, organização, implantação e direção de serviços de

pesquisa histórica;

IV – assessoramento, organização, implantação e direção de serviços de

documentação e informação histórica;

V – assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos, para fins

de preservação;

VI – elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos

sobre temas históricos.

 

            São essas as atribuições do Historiador nos caminhos de Clio, depois de longos anos de formação nas Instituições de Ensino reconhecidas pelo MEC, conforme preconiza a Lei 368/2009. A derrubada do veto fez deste dia 12 de agosto de 2020, UM GRANDE DIA!

sábado, 18 de julho de 2020

Feira do Alecrim: Patrimônio Cultural da Cidade de Natal.

Feira do Alecrim: Patrimônio Cultural da Cidade de Natal.

Luciano Capistrano

Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli

Mestrando: Profhistória/UFRN

 

Sábado é dia de feira:

Alecrim cheira jasmim

 

Sábado é dia de ferira, Alecrim cheira jasmim

Multidão em sintonia quase uma arritmia cardíaca

Carros atônitos entopem as ruas/avenidas

Pedestres perdidos ouvem sons de buzinas.

Sinal fechado, cuidado há vozes na esquina

Camelôs aflitos buscam o pão nosso de cada dia

Entrechoque de interesses validos/inválidos

Comerciantes gritam: espaços livres de ambulantes,

Intrusos sobreviventes da economia globalizada.

Corre, corre, gente de todos os lados,

Pois é sábado dia de feira, Alecrim fervilha

É goma peneirada, rolo de fumo, cabeça de porco,

Na feira do Alecrim tem de tudo.

Suor escorre no rosto, corpo cansado, angustiado

Geme sobrevivente do sistema hostil.

Entre as bancas escorre vida,

Simples humanidade pulsando utopias,

Contínuo tempo sem fim, pois ...

Sábado é dia de feira, Alecrim cheira jasmim!!

(Luciano Capistrano)

 

A feira do Alecrim, lugar de sociabilidade tradicional de Natal, logo se transformou num grande centro econômico. Em um domingo, 18 de julho de 1920, João Estevam e alguns amigos, organizaram a venda de suas mercadorias na avenida 1, avenida Presidente Quaresma. Na década de 1940, durante a administração do prefeito Gentil Ferreira, a feira passou para o sábado. Assim, desde então, sábado é dia de feira.

            A Feira do Alecrim é uma pujante geradora de empregos e renda, com quase 400 feirantes e 1000 barracas, gerações inteiras de famílias foram criadas através do trabalho de mulheres e homens, herdeiros dos primeiros comerciantes, empreendedores de uma época em que a rua era um verdadeiro areal. Hoje a rua é asfaltada, mas o cheiro e sabores da feira continuam a sobreviver em tempos dos hipermercados.

            Câmara Cascudo dá a seguinte informação sobre o reconhecimento do fundador da Feira do Alecrim: “A Lei Municipal nº 823, de 12 de junho de 1958, faz soar a palavra oficial sobre o assunto. Consagra a data, 18 de junho de 1920, e o nome do criador, o animador, o sonhador da Feira do Alecrim, o sr. João Estevão de Andrade.” (CASCUDO, Luís da Câmara. O livro das velhas figuras (volume IX). Natal: EDUFRN, 2005, p.157)

            A estes primeiros feirantes devemos a celebração do centenário deste Patrimônio Cultural da cidade de Natal. Nestes tempos “pandêmicos”, entre desesperanças e esperanças, a FEIRA simboliza o esforço de “invisíveis” trabalhadores, feirantes responsáveis por fazer girar a economia, da agricultura à indústria, passando pelo segmento de serviços fato é, faz necessário enxergarmos os fazedores das feiras.

            Que seja este o legado do centenário da Feira do Alecrim!

            Finalizo, essa pequena homenagem aos feirantes, com uma provocação: Por que não oficializar a FEIRA DO ALECRIM como Patrimônio Cultural da Cidade de Natal?

     Feira do Alecrim - Foto Luciano Capistrano.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

A CIDADE seus espaços, suas ESCRITAS!

A CIDADE seus espaços, suas ESCRITAS!

Luciano Capistrano

Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli

Mestrando: Profhistória/UFRN

 

“As cidades são antes de tudo uma experiência visual. Traçado de ruas, essas vias de circulação ladeadas de construções, os vazios das praças cercadas por igrejas e edifícios públicos, o movimento de pessoas e a agitação das atividades comerciais concentradas num mesmo espaço. E mais, um lugar saturado de significações acumuladas através do tempo, numa produção social referida a alguma de suas formas de inserção topográfica ou particularidades arquitetônicas. (BRESCIANNI, Maria Stella M. História e historiografia das cidades, um percurso. In FREITAS, Marcos Cezar de. (Org.) Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Editora Contexto, 2003, p. 237-258).

 

            Sou daqueles que gostam de andar, caminhar por ruas e becos da cidade, vivenciar a urbe, desvendar seus mistérios, ler suas escritas feitas em camadas do tempo. Dialogar sobre o espaço urbano me fascina. Me inquieta os significados, das igrejas, do casario, das estátuas, dos monumentos... dos silêncios erguidos em determinadas épocas, silêncios a sufocar memórias incomodas aos senhores do tempo presente.

            “As cidades são antes de tudo uma experiência visual”. Nos ensina a Historiadora Brescianni a pensar o cenário urbano e as memórias contidas em suas fachadas coloridas ou sem cor, ao passar por ruas e becos encontramos a urbe, pulsante, em um cruzamento do passado e presente, um a dizer do outro e os viventes do tempo em diálogos permanentes. De tudo, uma certeza: não cabe no espaço urbano a neutralidade, a urbe é o espaço da disputa, seu desenho, seus traços dizem do resultado das “forças sociais”, vivas feitoras da cidade.

            Ao escrever essas inquietações faço ao ouvir vozes que ecoam nas ruas das grandes cidades norte-americanas, são gritos de justiça depois do assassinato de George Floyd. Os protestos antirracistas atravessaram as fronteiras dos EUA e reverberaram o canto “Black Lives Matter (Vidas Negras Importam)”, numa ação legitima diante de tão absurdo ato policial, a comunidade negra dos EUA lembrou das feridas não cicatrizadas do passado escravocrata e das constantes ações policiais violentas contra a comunidade negra. Londres, Paris, Rio de Janeiro... uma primavera antirracista ocupa as cidades.

            Faço aqui uma advertência, me inquieta as vozes que se levantaram desde então, num movimento de derrubada de Estátuas. Ecoaram a legitima ocupação das ruas e praças. O ato mais simbólico desse movimento ocorreu no Reino Unido, a derrubada da estátua do comerciante de escravizados Edward Colston. Os monumentos são representações legitimas? A derrubadas de estátuas é um ato legitimo? Vejamos o que diz o Professor de História Francisco Santiago Junior:

 Essa iconoclastia das esculturas tem algo a mais em comum com o assassinato de Floyd do que estamos supondo. O iconoclasta é aquele que olha uma imagem e a vê como ídolo, ou seja, como “falso Deus”. É uma estratégia bíblica sabemos, que está lá no Êxodos, no episódio no qual Moisés quebra o bezerro de Ouro na descida do Monte Sinal. A escultura na praça é uma imagem de ancestral da comunidade que ocupa o espaço público, uma imagem para uma sociedade se reconhecer e se identificar por meio de seus fundadores. Derrubar esculturas destes fundadores racistas é uma forma de reconhecê-los como ídolos, convertê-los em falsos ancestrais, ou em fundadores indesejados. (https://passodotempo.wordpress.com/2020/06/08/agredindo-o-passado-iconoclasmo-e-antirracismo-contra-monumentos/  - acessado em 15/06/2020).

             É preciso pensar os significados desses protestos como também o que representa a manutenção ou destruição de determinados Monumentos em Praças Públicas. O debate está aberto. Nessa questão é importante fazer uma referência a memória, entendendo-a como algo não neutro, a memória coletiva também é um lugar de disputa dos diversos grupos sociais, assim:

 [...] a memória coletiva fundamenta a própria identidade do grupo ou comunidade, mas normalmente tende a se apegar a um acontecimento considerado fundador, simplificando todo o restante do passado. Por outro lado, ela também simplifica a noção de tempo, fazendo apenas grandes diferenciações entre o presente (“nossos dias”) e o passado (“antigamente”, por exemplo). Além disso, mais do que em datas, a memória coletiva se baseia em imagens e paisagens. O próprio esquecimento é também um aspecto relevante para a compreensão da memória de grupos e comunidades, pois muitas vezes é voluntário, indicando vontade do grupo de ocultar determinados fatos. Assim, a memória coletiva reelabora constantemente os fatos. (SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Editora Contexto, 2014, p.276)

             A paisagem urbana é resultado de nossas ações ao longo do tempo, isso é fato. Planos urbanos, ações de urbanizações, delimitações do “uso e abuso” do território da urbe nada é mais do que reflexo dos diálogos ou silêncios dos segmentos sociais organizados ou desorganizados, a leitura do cenário urbano se dá no tempo presente. Quantos significados encontramos num passeio por este palco urbano? O que dizem o monumental? O que dizem as ausências? O que dizem as intervenções urbanas?

            A uma questão importante nesse redemoinho de inquietação, o passado incomoda quando é confrontado com o estabelecido como natural, ou melhor, naturalizado. A memória preservada tem de ser posta diante da memória silenciada. Não basta apenas o ato simbólico, mesmo que firmado nas bases de um novo repensar sobre o passado, é necessário uma historiografia pautada em diálogos permanentes com outros campos de saberes, antropologia, sociologia, filosofia, enfim, uma relação dialógica do presente com o passado, não temos porque jogar para baixo do tapete o passado, pelo contrario é preciso retirar as teias de aranhas a impedir a sociedade de ver seu passado.

            A historiadora Lilia Moritz Schwarcz, em entrevista ao Estadão faz umas considerações pertinentes sobre a derrubadas de estatuas como forma de revisão de um passado. Ao ser questionada sobre a legitimidade do ato de derrubada de monumentos aponta:

 Eu acho que a questão é equivocada, que não se trata de ser contra ou a favor porque não se trata de abrir ou fechar um partido político que seja a favor ou contra esse tipo de manifestação. Eu sou a favor da reflexão em cima desse tipo de manifestação. Eu sou absolutamente a favor porque nós crescemos com uma historiografia que se chama de universal, mas que não é universal. É uma historiografia que se detém sobretudo nas conquistas e nos feitos das sociedades europeias e depois norte-americanas. Um bom exemplo aqui é por que será que no Brasil, que foi colonizado por portugueses, mas também indígenas e várias Áfricas, vários africanos, não temos na nossa história uma referência a todas essas origens? Ou seja, não se fala das inúmeras Áfricas que chegaram ao Brasil, as tecnologias, as filosofias, as culturas materiais, as religiões que vieram nos navios negreiros. Também não comentamos os inúmeros povos indígenas que estavam no Brasil quando os portugueses chegaram. (https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,por-que-sera-que-todos-os-nossos-herois-sao-homens-e-brancos,70003333018 – Acessado em 15/062020)

            Importante o debate sobre os monumentos erguidos na cena urbana serem pensados não como uma simples imagem de um herói ou um símbolo de uma época, faz necessário uma visão histórica/crítica sobre estes passados. Não basta a derrubada, neste sentido, comungo do pensamento da Professora de História, Lilia Moritz Schwarcz:

Penso sim que recuperar esses espaços simbólicos é um ato muito significativo. Como nós vamos recuperar é uma outra questão. Eu, particularmente, acho que não é o caso de destruir apenas. Eu faria, por exemplo, um memorial crítico da escravidão, um memorial crítico da colonização. Ou então, colocaria ao lado dessas, esculturas que tensionem esses regimes de verdade. Esculturas que digam o oposto sobre essa pessoa. Existem muitos mecanismos de fazê-lo, mas, por vezes, é preciso começar radicalizando para que a sociedade preste atenção. Porque o que acontece no nosso cotidiano, nós não vemos. Existe uma diferença muito grande entre enxergar e ver. Enxergar é uma faculdade biológica, ver é uma opção cultural. Eu penso que os brasileiros e de uma maneira geral a civilização ocidental enxerga, não vê. É isso que fazemos diante dessas esculturas, desses monumentos. (https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,por-que-sera-que-todos-os-nossos-herois-sao-homens-e-brancos,70003333018 – Acessado em 15/062020).

             A CIDADE seus espaços, suas ESCRITAS, devem serem confrontadas e não cristalizadas ou simplesmente destruídas. Olhando a cidade como um espaço construído em camadas ao longo do tempo, façamos o confronto do passado com o presente e pensemos em dar voz aquém foi silenciado ou simplesmente sofreu uma pacificação do seu passado. É fundamental seguir os caminhos urbanos por suas curvas e encruzilhadas emergindo desse caminhar no universo de Clio, os grupos sociais silenciados em tempos de outrora. Recordar não é esconder os pecados, sejam de heróis ou mitos. Pois o cidadão, muitas vezes chamado a enxergar e não vê o Patrimônio Cultural tem de ser participe da constituição desse Patrimônio. Urge:

 [...] repovoar o patrimônio urbano, nele reintroduzir o seu protagonista. Se examinarmos a bibliografia nacional disponível, veremos que nossos estudiosos produziram um vasto rol de dados e análises sobre o papel do Estado, da política, dos intelectuais, dos interesses econômicos, das ideologias, da trajetória dos órgãos de preservação, dos aspectos técnicos e sociais da preservação e conservação, da reabilitação urbana e temas conexos. Há também numerosos estudos de muita qualidade sobre cidade e cultura, cidade e patrimônio, cultura urbana. Conviria, agora, dar ao habitante, no universo do patrimônio cultural, uma presença menos etérea. (MENESES, Ulpiano T. Bezerra. Repovoar o Patrimônio Ambiental Urbano. Revista do Patrimônio, nº 36/2017, p.41).

             Não pergunte apenas por que preservamos a Fortaleza dos Reis Magos; Pergunte por que não erguemos memoriais aos povos originários e aos negros escravizados; Pergunte, questione as marcas erguidas em “pedra e sabão” e expostas em praças públicas como verdades inquestionáveis, assim penso, assim caminho por becos e ruas da cidade e como disse Câmara Cascudo: “Errariam menos os homens se lessem mais a história”. Façamos da escrita da cidade uma leitura permanente.

 

 

 

 

 

 


A esperança se vestiu de cinza.

  A esperança se vestiu de cinza.               Aqui faço um recorte de algumas leituras que de alguma forma dialogam sobre os efeitos noc...