terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O Pac das Cidades Históricas e uma cidade de 420 anos


O Pac das Cidades Históricas e uma cidade de 420 anos
Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando: Profhistória/UFRN

                Em dezembro de 2010 o Centro Histórico de Natal, os bairros da Cidade Alta e da Ribeira, precisamente, foram declarados Patrimônio Histórico Nacional. O IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, reconheceu através do instrumento do Tombamento a relevância histórica do conjunto arquitetônico e paisagístico dos dois bairros mais antigos da cidade. Natal entrava, assim, no clube das cidades históricas. Uma área de 28,4ha foram delimitadas no perímetro tombado e um entorno de 62,6 há, compõe o “território” com restrições legais para intervenções urbanísticas.
            A cidade cantada e decantada como Cidade do Sol, voltava-se para sua edificação, suas memórias erguidas e estampadas no seu Patrimônio de “Cal & Pedra”.
            Para além das edificações Natal começa a ter um olhar, de algum modo, mais cuidadoso ou, melhor, atento, para sua história, afinal, tem um rio, o Potengi, cenário dos encontros e desencontros coloniais, Potiguaras, Europeus, Africanos, civilizações  que aqui lutaram, que aqui se fizeram comedores de camarão, que aqui construíram uma cidade subindo e descendo dunas, atravessando rios, e erguendo pontes garantiram muito mais que o titulo de “Cais do Sertão” o de “Capital Potiguar”.
            E a Cidade do Sol é em 2013 inserida no Programa de Financiamento do Governos Federal, O Pac das Cidades Históricas. Um Programa que prevê linhas de financiamento para restauro de Patrimônios Históricos.
Natal tem escolhidos para Restauro as seguintes edificações: Forte dos Reis Magos, Palácio Felipe Camarão, Casarão do Arquivo Arquidiocesano, Casarão da Escola de Danças do Teatro Alberto Maranhão, Antigo Grupo Escolar Augusto Severo (Núcleo de Extensão da UFRN), Antigo Armazém Real da Capitania - Casa do Patrimônio, Edifício da Semut e o Teatro Alberto Maranhão.
Ainda faz parte do pacote de financiamento Projetos de Requalificação das Praças do Centro Histórico, como por exemplo as já concluídas, Praça do Estudante e Praça Sete de Setembro. E por fim a Reabilitação: Antigo Hotel Central - habitação de interesse social.
Bom não desejo fazer desse artigo um rol de obras acabadas ou inacabadas, apenas chamo a atenção para que a sociedade natalense perceba a importância da continuidade dessas ações, que se arrastam desde de 2013, para o desenvolvimento do turismo e me refiro ao turismo cultural, sempre é bom lembrar das particularidades de nossa cidade Natal. Lugar privilegiado do ponto de vista da história da aviação. Desde o início do transporte aéreo que o rio Potengi foi cenário para a amerissagem dos hidroaviões.
Jean Mermoz, Carlos Del Prete, Arturo Ferrarin, Francesco de Pinedo e até o escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry -  dizem que levou das terras natalense a inspiração para escrever O Pequeno Príncipe -, pousaram por essas margens do Atlântico.
Fato é Natal não recebeu de forma aleatória o nome de Cidade Trampolim da Vitória, cidade já conhecida na rota aérea Europa x América do Sul, foi base de apoio aos militares norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Uma história ainda por ser ensinada nas escolas e oferecida como atração turística para os visitantes e nativos da terra de Câmara Cascudo.
Finalizo o artigo sem nenhuma pretensão de ser conclusivo, apenas fui movido por uma inquietação referente ao abandono dos “nossos lugares de história”. Deixo aqui duas fotos para refletirmos sobre as Políticas Públicas, tímidas ou ausentes, de preservação do Patrimônio Cultural de Natal. Uma da Fortaleza dos Reis Magos, abro um parênteses para dizer da importância de se tecer uma rede com a Prefeitura de Natal, o Governo do Estado e o Governos Federal, através dos seus órgãos de turismo e de patrimônio cultural para com urgência fazer as obras necessárias no nosso vestígio mais antigo da presença ibérica em nossa cidade, e a outra foto, é do Casarão do Arquivo Arquidiocesano, na espera das obras de restauro, parte do prédio tombou.
Faz urgente ações de resteuro e preservação do Patrimônio Cultural, este é o nosso alerta, neste, O Pac das Cidades Históricas e uma cidade de 420 anos. Eis as fotos...

Forte dos Reis Magos - Foto: Luciano Capistrano


Casarão do Arquivo Arquidiocesano - Foto: Luciano Capistrano

domingo, 17 de novembro de 2019

Antes do pôr do sol... lembremos das vitimas de Tchernóbil.


Antes do pôr do sol... lembremos das vitimas de Tchernóbil.
Luciano Capistrano
Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando: Profhistória/UFRN

            Em uma das aulas com a turma do 1º C, o aluno Ricardo me interpelou sobre uma série que ele estava assistindo, "Chernobyl", eu desconhecia a série, então iniciamos uma conversa sobre o desastre nuclear acontecido na região da Bielorrússia, em 26 de abril de 1986. Um tema instigante. Essa conversa me fez relembrar das noticias transmitidas pelos canais de comunicação a época do desastre. Uma tragédia distante do meu “mundo”, mas me lembro das conversas com papai sobre o noticiário.
            Morador do Conjunto Santa Catarina, na década de 1980, minha preocupação era com o ônibus, minha condução diária para a Livraria Independência, meu primeiro emprego. Lembro-me de sair todos os dias pendurado na porta até o Alecrim, apesar das recomendações de mamãe para não fazer isso. Era quase impossível pegar um ônibus sem ter de “arriscar” a vida. Eram com emoção as viagens realizadas diariamente, entre Santa Catarina / Alecrim.
            Bom feito este parênteses, vamos ao tema deste artigo, o desastre nuclear de Tchernóbil. Para além das cenas descritas por Ricardo e depois conferidas por mim, na série dirigida por Craig Mazin, faço, aqui, uma inquietação em voz alta: Antes do pôr do sol... lembremos das vitimas de Tchernóbil.

    Foto: Luciano Capistrano - O Pôr do Sol!
Vi-me compelido a pensar sobre o dia 26 de abril de 1986, noticiado pelo Jornal Nacional no dia seguinte, quando diante da TV comentei com papai sobre o ocorrido. De fato, me preocupei com a possibilidade da contaminação, pensei na hora: vamos todos, eu, papai, mamãe e meus irmãos para o Capim, meu refúgio, assim pensava, claro uma segurança imaginária que trago desde os tempos de criança da Vila Mauricio.
            Provocado então por meu aluno Ricardo, procurei ler sobre o tema, foi nessa busca que encontrei na Livraria Leitura o livro, “Vozes de tchernóbil: a história oral do desastre nuclear”, da jornalista Svetlana Aleksiévitch. Encontrei o livro no dia 16/11/2019, ainda estou lendo, e, a cada página, a cada parágrafo, os olhos marejam, as lagrimas insistem em cair. Faço essa escrita para partilhar das minhas  inquietações, não me alongarei no texto, mas pretendo continuar em outro momento a tratar desse assunto. Por enquanto vou pisando devagar os caminhos espinhosos abertos por Aleksiévitch:

No entanto, a cidade ficou lotada de veículos militares, todas as estradas foram fechadas. Havia soldados por toda parte. Os trens regionais e expressos pararam de circular. As ruas eram lavadas com uma espécie de pó branco... Fiquei assustada: como iria, no dia seguinte, à aldeia comprar leite fresco? Ninguém falava em radiação, só os militares circulavam com máscaras respiratórias... As pessoas compravam os seus pães, saquinhos com doces e pastéis nos balcões... A vida cotidiana prosseguia. Só que... as ruas eram lavadas com uma espécie de pó... ( ALEKSIÉTCH, Svetlana.  Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 18-19).

                Neste relato já fica claro o caráter obscuro que envolveu toda a situação desencadeada com a explosão do reator nuclear, me refiro a falta de clareza nas informações, as autoridades da ex União Soviética, simplesmente esconderam o real perigo da população das áreas atingidas pela radiação atômica. O ar, a terra e tudo que habitava a região foram condenados a própria sorte. Os monstros invisíveis liberados logo depois com as explosões, estavam nos lares, nas hortas, nas ruas, por toda a parte.
            As primeiras vitimas foram os bombeiros e os funcionários da usina.  Finalizo, com outro fragmento do livro citado, encerro para continuar a leitura e convido minha cara leitora, meu caro leitor, para continuarmos a refletirmos sobre o papel que deveria ter sido desempenhado pelas Instituições Governamentais de Moscou nos primeiros instantes informando as pessoas dos reais motivos de tantos militares estarem nas ruas e o porque da evacuação, anunciada dias depois da explosão. Talvez relato como este não existissem:

Pelo aspecto, parecia um bebê saudável. Bracinhos, perninhas... Mas tinha cirrose. No fígado havia 28 roentgen, e uma lesão congênita no coração. Depois de quatro horas, me disseram que ela tinha morrido. E me falaram de novo: ‘Nós não vamos te dar o corpo dela’. ‘Como não vão me dar o corpo?! Sou eu que não o darei a vocês! Vocês querem tomar minha filha para a ciência, pois eu odeio a sua ciência! Odeio! A sua ciência já levou o meu marido e agora quer mais...  Não darei! Eu mesma a enterrarei. Ao lado dele...’ [Passa a falar em sussurros.] ( ALEKSIÉTCH, Svetlana.  Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 34).

            Volto a leitura. Façamos das nossas inquietações, sempre, um dialogo democrático.


sábado, 9 de novembro de 2019

09 de novembro de 1989: Grande dia


09 de novembro de 1989: Grande dia
Luciano Capistrano
Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando: Profhistória/UFRN

            Na noite do dia 09 de novembro de 1989, eu estava com papai assistindo ao Jornal Nacional.  Morávamos no Conjunto Santa Catarina, Rua Hidrolândia, quando testemunhamos à alegria do povo alemão diante do Muro de Berlim, rostos estampando um misto de choro e riso, era a representação do sentimento da liberdade do reencontro. O Muro estava indo ao chão e com ele a Berlim separada estava sendo a golpe de “picaretas” e mãos, finalmente, voltando a ser una.
            Naquela noite caia o símbolo da Guerra Fria!
            O Muro de Berlim não significou apenas a divisão de uma cidade. Construído em agosto de 1961, simbolizou a divisão do mundo: De um lado o “mundo”  Capitalista e do outro o “mundo” Socialista. Eram duas “Alemanha”, a República Federal da Alemanha e a República Democrática Alemã.  Famílias, amigos, uma nação de um dia para o outro foi separada. Quase três décadas de segregação. Era aproximadamente 70 km com grades metálicas, torres de observação, arames eletrificados e soldados armados com ordem expressa para atirar em todos que ousassem ultrapassar a barreira imposta.  
No link abaixo a queda do Muro de Berlim, em uma reportagem, memória,  da TV Globo:


https://www.youtube.com/watch?v=GYXBrlVkBuI&feature=share&fbclid=IwAR0sf7nNI_87qg23bAkbsG-SNOZn8fUBKAADrS1nqrI6zqmr_CokloMpGxQ


             E  e a banda SCORPIANS celebra com, THE WALL 1990:

https://www.youtube.com/watch?v=O9HtbTZuO_g&list=PLKjNPhOA2KhpR89WLeUMP6CAmD8y39LrB

            O dia 09 de novembro de 1989 deve ser celebrado por todo o mundo democrático, a sociedade alemã, da parte oriental e ocidental, disseram não a opressão das liberdades. O modelo autoritário faliu. O socialismo e seus instrumentos do stalinismo aliado a grave crise econômica já não conseguia “manter” a ordem nos países do leste europeu. Ventos da glasnot e perestroika, impulsionados por Gorbachev, na antiga União Soviética, varriam os países socialistas da Europa. O mundo exigia democracia.
            A crise dos países socialistas ganhou um simbolo, a queda do Muro de Berlim, como reflexo  da crise  “[dos] últimos anos da União Soviética  [...] uma catástrofe em câmara lenta”, disse o historiador Eric Hobsbawm, em  Era dos Extremos. Como cantaram os Titãs, "... a gente não quer só comida..." e para além das construções dos mitos, a década de 1980 representou o inicio de uma nova ordem, talvez os dias presentes tenham muito do sentimento vivido no leste europeu dos anos 1980.
            Fato é naquela noite, alemães, se abraçaram e gritaram “grande dia”.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Fotografia, cidade, história, caminhada histórica... inquietações!



Fotografia, cidade, história, caminhada histórica... inquietações!
Luciano Capistrano
Professor de História – Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando – Profhistória/UFRN

    Foto: Luciano Capistrano – Monumento em homenagem a Câmara  Cascudo

Fiz essa foto durante a 7ª Caminhada Histórica de Natal (2018), promovida pela Viva Entretenimento. Bela iniciativa que tem a coordenação técnica do historiador Alexandre Rocha. Bem voltemos a foto, gosto desse click, e, sempre lembro do texto de Câmara Cascudo, extraído do livro História da Cidade do Natal:

“Do cimo da Torre da História, o alvissareiro anuncia a passagem, na linha do horizonte, dos velhos e passados navios que estão no fundo do mar. Sonhos, amores, lutas, ambições, delírios, mortes, tudo quanto segue na alma do Homem, sempre com ele viveu, como a sombra ao corpo, muda e teimosa testemunha de sua passagem, reaparece e vive a vida emprestada pela recordação. Gente do Norte e do Sul. As bandeiras sobem, contando, de dia e de noite, como os navios passaram, chegaram e partiram para sempre.” (Luís da Câmara Cascudo – História da Cidade do Natal).

            A fotografia tem sido uma das minhas paixões, sempre faço fotos das ruas e becos da cidade, talvez tomado pelo desejo, muito ambicioso de minha parte,  de fazer parte do grupo do “alvissareiro”, como apontou Cascudo, aquele com a função de anunciar “... a passagem, na linha do horizonte, dos velhos e passados navios...” O certo é, de uma alegria imensa, caminhar por “clicks” a registrar a paisagem da urbe em um dialogo entre os poetas, cronistas, memorialistas e historiadores a descortinar os “... passados navios que estão no fundo do mar...” Como no canto de João da Rua:
Natal
de peixe boi à fortaleza
não existe mistério
tudo todo mundo sabe
neste pequeno espaço
deste perímetro urbano
não há segredo no rosto da cidade.

Todo dia a estrela Dalva lumia
no peito desta gente multicor
um velho sentimento índio
que não seja traidor
tudo todo mundo sabe
sob a lua ou sob o sol desta cidade
um velho sentimento índio
resistindo pela eternidade.
( O Canto o colonizador contra o entregador – João da Rua )
            A cidade surge na escrita, são as narrativas dos fazedores da urbe, neste sentido gosto dos poetas, sigo os pares de João da Rua para compreender e desvendar os caminhos e descaminhos de  uma Natal existente na memória e nos seus símbolos erguidos ao longo do tempo. As praças e seus elementos são narrativas da cidade a dizer de seus habitantes. A foto da Praça André de Albuquerque apresenta no centro o Monumento erguido em 1917 em celebração aos potiguares Padre Miguelinho e André de Albuquerque mártires da Revolução de 1817.
            
     Foto: Luciano Capistrano – Monumento em homenagem aos Potiguares  Mártires de 1817.
           
    Foto: Luciano Capistrano – Relógio do Alecrim

           O imaginário faz parte construtiva do espaço urbano,  a identidade do ser local diz muito das representações imaginadas, sejam a paisagem natural ou a paisagem construída. Um exemplo, pode ser o Morro do Careca, símbolo da cidade de Natal ou o Relógio do Alecrim, pontos referenciais para  se localizar no espaço urbano, todos pertencentes as narrativas da urbe. O historiador José D’Assunção Barros chama a atenção para o imaginário do cidadão na feitura da cidade, neste sentido: “para além de sua representação através da imaginação dos mestres urbanistas e de intelectuais de diversos matrizes, a cidade deve ser examinada, adicionalmente, na perspectiva de sua construção na imaginação do próprio cidadão comum.” ( BARROS, José D’Assunção. Cidade e História. Petrópolis: Editora Vozes, 2012, p. 94)
A Caminhada Histórica de Natal é uma iniciativa importante na relação da cidade seus habitantes e o Patrimônio Cultural, ao andar por ruas e becos o cidadão inicia, digamos, um processo de reconhecimento de sua identidade, neste sentido, a Educação Patrimonial tem a digital bem nítida neste tipo de evento. Gosto de realizar feito um “andarilho da história”, em eventos criados nas redes sociais, a partir do Grupo Gestores do Centro Histórico, do Facebook, e vejo na Caminhada Histórica de Natal, sua 8ª edição, que será realizada no dia 30 de novembro, mais um instrumento para que se faça conhecida à história de Natal.
 
     Foto: Luciano Capistrano – 7ª Caminhada Histórica de Natal/2018.

            Este “Fotografia, cidade, história, caminhada histórica... inquietações!” é um convite para pensarmos a urbe, o seu Patrimônio Cultural e participarmos da 8ª Caminhada Histórica de Natal. Pensar políticas de preservação faz necessário, principalmente nestes tempos de revisão do Plano Diretor, façamos sempre de nossas inquietações um dialogo democrático.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Democracia, este é o caminho... minhas inquietações!


Democracia, este é o caminho... minhas inquietações!
Luciano Capistrano
Professor de História – Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando – Profhistória/UFRN

“... O povo, iludido, lamentavelmente trocou tudo isso por voto ...” (31 de março de 2010, discurso do, então, Deputado Federal Jair Bolsonaro no plenário da Câmara para exaltar os feitos da ditadura militar civil/1964)

            Ao longo dos anos tenho, cada vez de forma mais radical, me posicionado a favor da democracia, costumo inclusive dizer em voz alta: a saída para crise política e econômica é uma Overdose de Democracia. Não existe outro caminho. As soluções totalitárias são abismos de cores fascistas. Início este curto artigo, com um fragmento retirado do discurso do Presidente Jair Bolsonaro, na época Deputado Federal, feito durante uma audiência publica para relembrar o Golpe Militar/Civil de 1964.
            Infelizmente persiste essa narrativa enaltecendo o autoritarismo implantado no Brasil na década de 1960, quando o governo de João Goulart, democraticamente eleito foi derrubado por um movimento golpista articulado por parte dos militares e diversos setores da sociedade civil aliados aos EUA. O contexto da Guerra Fria foi o pano de fundo dessa interrupção da democracia brasileira.
            Penso nos riscos de uma sociedade quando os valores de respeitos à liberdade de expressão e critica são ameaçados ao ponto dos “inimigos invisíveis” serem parte da justificativa para  a evocação de instrumentos de repressão política, por isso, meu caro amigo, minha cara amiga, precisamos evocar sempre os valores da democracia quando vozes teimam em enaltecer o submundo dos porões da ditadura. Falas como a do Presidente Jair Bolsonaro, na época Deputado Federal, em entrevista à rádio Jovem Pan: “... o erro da ditadura foi torturar e não matar...”, devem ser rechaçadas.
            Hoje os senhores bolsonaristas, seguem a narrativa do antes candidato e hoje Presidente da República. O caso mais recente foi do seu filho o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro ao se referir as mobilizações ocorridas no Chile disse: “E a resposta, ela pode ser via um novo AI-5...” Não foi uma frase infeliz, dita sem “querer”, a relação do clã Bolsonaro com o lado radical dos golpistas de 1964 vem de longe. Ao citar aqui algumas falas do Presidente, saudosistas dos mecanismos de repressão política criados durante os denominados “anos de chumbo”, faço para reafirmar o risco de termos na Presidência alguém, mesmo eleito, repito, dentro de um regime democrático, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra . Para não irmos muito longe, relembro da opinião de Jair Bolsonaro durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmando que a ditadura deveria ter matado “... uns trinta mil...”.
            Finalizo essas minhas inquietações com a frase do Deputado Ulisses Guimarães ao Proclamar a Constituição de 1988: “O Estado autoritário prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilela, pela anistia, libertou e repatriou. (Palmas.) A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram.”
           Prefiro  o barulho do povo nas ruas, do que o som sombrio dos tanques,  seja nas Jornadas de Junho de 2013, seja nas Manifestações contra o Corte dos recursos para as Instituições Federais de Ensino de 2019. Façamos, sempre, das nossas inquietações um diálogo democrático.

    Foto retirada do blogger Revolta do Busão - Jornadas de Junho/2013, vista parcial da BR 101 Natal

    Foto: Luciano Capistrano - Manifestação Em defesa da Educação / 2019 
           
           

domingo, 20 de outubro de 2019

Resolução Orçamentária de Natal de 1919: uma inquietação.


Resolução Orçamentária de Natal de 1919: uma inquietação.
Luciano Capistrano
Professor de História: Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando Profhistória/UFRN
           Em minhas andanças pelos sebos, dessa vez no mundo virtual, encontro um documento datado de 30 de setembro de 1919. É a Resolução Orçamentária de 30 de setembro de 1919 para vigorar no Exercício de 1920. Trata-se de um documento da Intendência do Município de Natal. Meus olhos brilharam, o coração palpitou, coisas de quem vive os caminhos de Clio. Comprei.
        Algumas curiosidades apontadas no documento orçamentário do município se referem ao vencimento do professor:
Vencimentos do Professor diurno da Cidade Alta: 1:200$000
Vencimentos do Professor noturno da Cidade Alta: 800$000
Vencimentos da Professora da Cidade Alta: 1:440$000
Vencimentos da Professora da Cidade Nova: 1:440$000
Vencimentos do Professor de Ponta Negra: 720$000
Vencimentos da Professora de Ponta Negra: 720$000
            O que me inquietou com essa tabela de vencimentos dos profissionais do magistério, foram os valores por região da cidade e por questão de gênero e do ensino diurno e noturno. A primeira leitura fria, sem outros elementos as mãos, com apenas as informações da Resolução Orçamentária, identifico uma situação de critérios diferenciados para classificar este profissional da educação.
            O caso do Professor da Cidade Alta do turno noturno, receber um vencimento inferior ao Professor da mesma Cidade Alta me faz pensar que o ensino noturno, dedicado as camadas de trabalhadores sofre ao ofertar um salário abaixo do diurno.
Do mesmo modo, acontece com regiões distintas da Natal de 1919/1920, vejamos, a situação de Ponta Negra, naquela época uma localidade rural da cidade, distante do centro. Pois bem, o vencimento do Professor ou da Professora, que assumisse uma sala de aula nessa localidade, receberia um vencimento 50% menor do que ganharia se trabalhasse, por exemplo no bairro Cidade Nova, que é hoje Tirol e Petrópolis. Cidade Nova o terceiro bairro criado em Natal, nasceu par atender a elite capitaneada pela oligarquia Maranhão.
            Essas diferencias salariais me leva a crer em uma desvalorização do ensino nas áreas periféricas da urbe. Faço aqui uma observação: este fato carece de uma pesquisa mais cuidadosa, de todo modo vale o registro, até porque existe uma lógica ao pensar na discriminação das áreas periféricas em relação as áreas centrais. Inclusive, é pertinente observar que o bairro Cidade Nova, tem um motivo a amis para se exercer o ofício do magistério naquela região da cidade. Os vencimentos dos professores chegam ao maior salário indicado para este profissional no documento. Em uma escala de valorização por bairros e região: 1º Cidade Nova e Cidade Alta, e 2º Ponta Negra, para ficarmos nestes exemplos descritos no orçamento municipal.
            Por fim, outro detalhe nos chamou a atenção, o fato dos vencimentos das Professoras, em alguns casos serem maiores do que os dos Professores, o que demonstra uma preferência para as mulheres na contratação do profissional do magistério. Deixo, então, um convite aos historiadores, para pensarem a formação social de Natal, a partir da leitura destes documentos administrativos. São fonte importantes para compreendermos a composição socioeconômica da sociedade natalense ao longo do tempo. Seja, enfim, este curto artigo,  Resolução Orçamentária de Natal de 1919: uma inquietação,  uma porta quem sabe para uma pesquisa histórica.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Meu reencontro com Myriam Coeli


Meu reencontro com Myriam Coeli
Luciano Capistrano
Professor de História – Escola Estadual Myriam Coeli
Mestrando – Profhistória / UFRN

            Acho que foi no dia 05 de junho de 2007, quando entrei pela primeira vez na Escola Estadual Myriam Coeli, localizada no Conjunto Nova Natal, bairro Lagoa Azul. De início me deparei com uma pintura na entrada da Diretoria, uma linda imagem da patrona da escola, arte do artista, na época vice-diretor, Edson Moura. Estampada na parede, o cartão de visita da escola, a poetisa, com seu lindo semblante a me convidar a reencontrar sua poesia.

Foto: Luciano Capistrano - Retrato de Myriam Coeli por Edson Moura.

Professor de história e amante das letras Potiguares, herdeiro dos hábitos de papai, foi em sua biblioteca meu primeiro encontro com a poetisa de Vivência Sobre Vivência. Visitei a biblioteca da escola em busca de Myriam Coeli, minha surpresa, nada encontrei. Os livros voaram, criaram asas e voaram... Encontrei, enfim, com a Professora de Português Lurdimar, o Inventário. Era o Projeto Chá Com Arte, sobre a coordenação da Professora Sandra, e eu pensei em apresentar a patrona da escola, então escolhi Busca - poesia dedicada a Celso da Silveira seu amor -, para realizar uma Intervenção Poética:
Busca
Deus é a meta.
Eu O procuro
Em vias tortas
E em metáforas.
Sou caliça,
Fel, mordaça,
Circo e faca.
[...]
Deus é a face,
Eu, o disfarce.
[...]

            Não tem como ficar indiferente a poesia de Myriam Coeli, seus versos traduzem o ser humano nas suas dimensões diversas. Me apaixonei. Segui os caminhos dos sebos catando livros, no mundo dos ácaros para encontrar sua obra poética. Enfim, numa manhã de sábado, caminhando pela Cidade Alta, ao lado dos Professores Otoniel e Henrique, fico frente a frente de Cantiga de Amigo, livro editado em 1981 pela CLIMA, do saudoso Livreiro Carlos Lima, nem penso duas vezes, tinha três volumes, pego todos. Versos cantam a amizade:
[...]
De minha torre mui alta
Com canções junquei estradas
Sejam albas ou serenas,
Trovares, chantos, baladas.
                    Meu amigo
                    Por quem morro.

Da torre descendo a seta,
De olhar firme no olhar.
Descerei, serei fanfarra
E viola de trovar.
                 Meu amigo
                 Por quem vivo.
[...]

        Jornalista, professora, poetisa, inquieta, marcou sua passagem no plano terreno. Mulher, esposa, mãe, deixou para nós um grande legado literário. Mesmo não tendo o privilégio de seu convívio a conhecemos através de sua escrita. Uma mulher a frente de seu tempo. Na década de 1950, abriu as redações dos jornais diários para o sexo feminino, sendo inclusive a primeira mulher a ser encontrada nas redações no período noturno.
        Numa época em que Natal se expandia para além do Loteamento Reforma, hoje bairro Felipe Camarão; o Alecrim, bairro centenário, consolidava se como lugar de morada e comercio, nas palavras do professor Itamar de Sousa, O Cais do Sertão; a espoliação imobiliária chegava as portas do cemitério da cidade, como alertava nosso historiador Luis da Câmara Cascudo; a imprensa diária publicava crônicas de Myriam Coeli para o deleite dos natalenses.
      Myriam Coeli, dona de uma escrita tradutora do ser humano.
      Manoel Onofre, em Literatura e Província, nos informa: “Não temos receio de afirmar: - Myriam Coeli é um dos mais altos valores da Literatura brasileira contemporânea. Juntamente com Zila Mamede representa, hoje, a melhor contribuição do nosso Estado, em termos de poesia de mulher, para as letras nacionais.” Concordo com o mestre Onofre, homem das letras que se fez Desembargador. Myriam Coeli é sim um valioso expoente das letras potiguares.
       A filha do Amazonas, Potiguar de coração, Myriam Coeli nos presenteou com as seguintes obras: Imagem Virtual (1961); Vivência sobre vivência (1980); Cantigas de amigo (1980); Inventário (1981) e o livro publicado pós morte, Da boca do lixo à construção servil: o livro do povo (1992). Caro leitor, este é o convite e a provocação, deste artigo, para não se guardar, somente, no baú da memória, as belas letras de Myriam. A poetisa de São Jose de Mipibu, necessita ser revivida nas escolas, nas salas de aulas, fazendo de sua palavra o caminho das letras das novas gerações.
       Uma geração que tem o direito de conhecer a Ode à Palavra: “A palavra trabalha com hábeis mãos. Dela me sirvo à mesa com esses poucos gestos que saciam meus segredos. Por menos que me baste, a ela servindo estou e lhe ofereço o disfarce da ordem e da compreensão. Através dela me armo e soletro caminhos incertos com seus ardis tão certos. Mas, animal, dela sou presa e me resumo na proeza de lhe dar formas libertas – pois meu ofício é dar à palavra, invenção.”
        Num país sem memória, seria interessante o desenvolvimento de projetos incentivadores de leituras potiguares. Projeto pioneiro, que vivi como professor, na cidade de Parnamirim, “O Escritor Potiguar Vai à Escola Pública”, meu segundo encontro com Myriam Coeli. experiência exitosa, estudantes, professores, lendo e dialogando com escritores norte-rio-grandense. Na Escola Municipal Manoel Ferreira, vivemos e convivemos com Auta de Souza, Ferreira Itajubá, Zila Mamede, Myriam Coeli, Francisco Ivan, Pablo Capistrano e tantos outros, antes, ilustres desconhecidos.
         Enfim, amigo leitor, ao lembrar Myriam Coeli descobrimos o quanto estão distantes de nossas salas de aulas os escritores potiguares. Esperamos que a Secretaria de Cultura, a Fundação José Augusto, a Secretaria de Educação e outros órgãos públicos e organizações da sociedade civil, façam uma rede de promoção das letras potiguares. Acredito ser possível reviver nos diversos municípios potiguares a experiência do projeto: O Escritor Potiguar Vai à Escola Pública, iniciativas alvissareiras já existem, precisam deixar de ser projetos para se transformarem em Políticas Públicas.
            Assim foi meu reencontro com Myriam Coeli e hoje guardo na minha estante, Cantigas de Amigo, Inventário e Da Boca do Lixo á Construção Servil. Obrigado Myriam Coeli, para além de ser patrona do meu lugar de trabalho, és poesia em nossa trajetória de amante das letras.

A esperança se vestiu de cinza.

  A esperança se vestiu de cinza.               Aqui faço um recorte de algumas leituras que de alguma forma dialogam sobre os efeitos noc...